Luís Gomes da Costa · Investigador Doutoral · Universidade de Aveiro / ID+ / LiDA · 2023–2026

Arte Rural Dialógica

Criações Artísticas Multimodais entre Lugares, Comunidades e Sentidos Rurais do Sul da Europa

Investigação Artística Baseada na Prática
ID+ — Instituto de Investigação em Design, Media e Cultura
LiDA — Laboratório em Design e Artes
Binaural Nodar — Associação Cultural
Rede Tramontana
Palavras-chave
Arte em contexto rural
Etnografia audiovisual
Arte sítio-específica
Etno-poiesis
Cinema expandido
Instalação interativa
Diálogo interlocal
I
Introdução: Uma Raiz entre Lugares
O contexto autobiográfico, cultural e institucional da investigação
Linha Temporal da Investigação
2004 Regresso 2006 Binaural 2023 Doutorament. 24–25 9 Ensaios 2026 Defesa

Esta investigação emerge de uma vida de experiência vivida entre mundos urbanos e rurais. Nascido de pais que emigraram de uma região rural para Lisboa, o investigador cresceu a oscilar entre duas realidades — a periferia multicultural da capital e os vales pristinos do rio Paiva em Viseu Dão Lafões. Em 2004, um regresso deliberado a esse mundo rural conduziu à fundação da Binaural Nodar – Associação Cultural, que desde então acolheu mais de 175 artistas e investigadores de mais de 20 países em residência artística.

Ao longo de duas décadas de atividade curatorial, artística e editorial no Sul da Europa rural — incluindo projetos em Espanha, Itália, Uruguai e Brasil — o investigador desenvolveu um comprometimento sustentado com a complexidade dos lugares rurais: as suas identidades, transformações e afinidades interlocalistas. Esta investigação doutoral em Criação Artística (Universidade de Aveiro / ID+ / LiDA, 2023–2026) formaliza essa experiência acumulada numa metodologia baseada na prática.

“Esta investigação propõe uma metodologia de investigação artística interlocal, baseada na prática, onde a etno-poiesis e o ensaio audiovisual transformam materiais etnográficos em formas sensoriais e relacionais de conhecimento sobre os territórios rurais do Sul da Europa.”

A questão central: como pode a prática artística, através de uma metodologia interlocal e multimodal, captar e tornar visíveis as relações — frequentemente invisíveis — entre lugares rurais geograficamente distantes mas culturalmente afins? (Borowiecki et al., 2016; MacClancy, 2015; Figueiredo et al., 2011)

II
Estado da Arte e Antecedentes
Práticas artísticas em contextos rurais e diálogo interlocal

A investigação situa-se na intersecção de quatro campos estabelecidos. Na etnografia sensorial, o trabalho de Pink (2015) e do Sensory Ethnography Lab de Harvard (Castaing-Taylor, 1996) enquadra uma abordagem que privilegia o conhecimento incorporado e multissensorial sobre a descrição textual — reconhecendo que o investigador não reivindica o papel de etnógrafo no sentido disciplinar.

A tradição do ensaio audiovisual como “forma que pensa” (Corrigan, 2011; Rascaroli, 2017) — exemplificada pelo cinema de planos longos de Hutton em Two Rivers (2001–2002) e pela montagem dialética de Russell em Good Luck (2017) — modela como os ritmos sensoriais podem evocar conexões interlocalistas sem apagar a diferença.

A arte sítio-específica fornece a âncora paradigmática através da crítica de Kwon à expansão do campo para além de um lugar singular (2002). Por fim, o cinema expandido — de Youngblood (1970) a Akomfrah (2023) e ao debate de Bellour sobre a querela dos dispositivos (2012) — enquadra a transição dos ensaios lineares para a instalação interativa.

III
Desenvolvimento Conceptual
Dualidade sítio-específica, etno-poiesis e o ensaio audiovisual como dispositivos epistemológicos
Dualidade Sítio-Específica
Lugar A PT / ES / IT Lugar B PT / ES / IT terceiro lugar ← intervalo relacional →
Dualidade Sítio-Específica
Cada obra estabelece diálogos entre dois contextos rurais geograficamente distintos mas culturalmente afins, criando “terceiros lugares” nos interstícios através de justaposição e parataxe. (Costa & Duarte, 2025; Baptista, 2016; Kwon, 2002)
Etno-poiesis
Transformação criativa de materiais etnográficos em formas artísticas poéticas que devolvem agência estética e política às comunidades participantes. (Hymes, 1981, 2003; Gaiger, 2009; Bishop, 2012)
Taskscape / Paisagem de Tarefas
Os lugares rurais como configurações dinâmicas resultantes da interação contínua entre práticas humanas, paisagens, memórias e temporalidades. (Ingold, 2000; Cresswell, 2014)
Objetos de Fronteira
Arquivos, mapas, vestígios materiais e histórias orais que funcionam simultaneamente como evidência etnográfica e matéria-prima poética. (Star & Griesemer, 1989; Groot & Abma, 2021)

Esta investigação inscreve-se na investigação artística baseada na prática: os quadros teóricos não são aplicados externamente como grelhas analíticas — são operacionalizados como dispositivos ativos que orientam diretamente o trabalho de campo, a captação audiovisual, a montagem e a instalação. (Barrett & Bolt, 2007; Bolt, 2007)

O lugar é entendido — seguindo o Dasein de Heidegger (1927/1962) — como modo de ser-no-mundo, enquanto Didi-Huberman (2026) garante que a investigação resiste a noções de origens fixas: o lugar é dinâmico, poroso e relacional.

“A prática não é a aplicação da teoria, mas um modo de pensamento em si mesma.” — Bolt, 2007, pp. 27–34
IV
Metodologia
Da etnografia multissituada ao ensaio audiovisual — uma abordagem empírico-poética
Arquitetura Epistemológica — Investigação Baseada na Prática
TODAS AS FASES SÃO BASEADAS NA PRÁTICA — A TEORIA TRADUZ-SE EM DECISÕES CRIATIVAS CONCRETAS PARADIGMA Investigação Baseada na Prática APROXIMAÇÃO Fenomenologia + Etn. Sensorial + Multissituada CONHECIMENTO Ensaio AV + Etno-poiesis VALIDAÇÃO Instalação Interativa CONTRIBUTO Dualidade Sítio-Esp. + Etno-poiesis + Ensaio Espacializ.

A metodologia segue uma abordagem empírico-poética desenvolvida dentro de um campo operativo dialógico. O investigador não é etnógrafo no sentido disciplinar: esta dimensão quase-etnográfica existe apenas no espaço da prática artística — cinema experimental, ensaio audiovisual e instalação. (Castaing-Taylor, 1996)

1
Trabalho de Campo Multissituado
Dois lugares rurais de PT/ES/IT selecionados por critérios afetivos. Imersão multissensorial: gravações, fotografias, entrevistas in situ, recolha de arquivo e objetos. O deslocamento físico entre os dois lugares é ele próprio metodológico. (Falzon, 2009)
2
Etnografia Sensorial e Fenomenológica
Microfones binaurais, hidrofones, microfones de contacto, planos longos e incorporados. Captação de texturas sonoras: ferramentas, vento, ritmos de trabalho, dialetos. (Merleau-Ponty, 1945/2012; Heidegger, 1927/1962; Pink, 2015)
3
Materiais como Objetos de Fronteira
Os materiais recolhidos funcionam simultaneamente como evidência etnográfica e matéria-prima poética, circulando entre contextos disciplinares. (Star & Griesemer, 1989; Groot & Abma, 2021)
4
Etno-poiesis: Transformação Criativa
Pesquisa adicional + pensamento lateral + composição eletroacústica + escrita ensaística. O texto não explica o campo — dialoga com ele, respeitando ritmos, pausas e cadências vernaculares. (Hymes, 1981, 2003; Gaiger, 2009; Bishop, 2012)
5
Ensaio Audiovisual: A Montagem como Operação Epistemológica
Integração de vídeo, paisagens sonoras, narrativas orais, materiais de arquivo e textos poéticos. O sentido emerge no intervalo entre fragmentos justapostos. (Corrigan, 2011; Rascaroli, 2017; Bolt, 2006; Baptista, 2016)
V
Os Nove Ensaios Audiovisuais
Nove obras dual site-specific conectando comunidades rurais de Portugal, Espanha e Itália

Cada ensaio aplica o esquema metodológico do capítulo 6 — identificando a temática específica, a tipologia relacional (espelho, contraste, salto/viagem, analogia) e a forma como cada dimensão (paisagística, etnográfica, histórica, literária, poética) se concretiza naquele encontro interlocal. (Costa & Duarte, 2025)

01
Dois Montes Irmãos
Pico Sacro (ES) ↔ Monte de São Macário (PT)
Espiritualidade · Espelho
02
O Terceiro Rio
Torrente Bisagno (IT) ↔ Rio Paiva (PT)
Água / Memória · Contraste
03
Canais de Água e Alimento
Agro Pontino (IT) ↔ Gralheira (PT)
Agricultura · Contraste
04
Um Conto Asinino
Zamora (ES) ↔ Viseu Dão Lafões (PT)
Vida Animal · Viagem
05
Carqueja & Giesta
Ginestar (ES) ↔ Várzea de Calde (PT)
Etnobotânica · Contraste
06
O Tempo da Horta Eterna
Poggio delle Rose (IT) ↔ Gafanhão (PT)
Horticultura · Analogia
07
Os Animais da Criação
Li Massimuccë (IT) ↔ Raso (PT)
Pecuária · Contraste
08
Tessitura
Campotosto (IT) ↔ Várzea de Calde (PT)
Artesanato Têxtil · Viagem
09
A Noite em Comum
Penna Sant’Andrea (IT) ↔ Negrelos (PT)
Rituais Calendáricos · Analogia
VI
“Interstícios Rurais” — Instalação Interativa Multicanal
Do tempo ao espaço — um meta-terceiro lugar vivo
Sistema da Instalação
INPUT 1 sensor Kinect até 4 participantes (dados esqueléticos) PROCESSAMENTO Motor Unity 3 estados de interação OUTPUT 2 ecrãs de vídeo 54 videoclipes (9 ensaios) + camada sonora ambiente SIMBÓLICO Tecidos de tule translúcidos como membranas de memória META-LUGAR Memória + imaginação + perceção + experiência

A transição do ensaio audiovisual linear para o espaço instalativo inscreve-se no debate de Bellour sobre os limites do dispositivo cinematográfico (2012). Inspirada na montagem multicanal de Akomfrah (2023), a instalação distribui 54 videoclipes de todos os 9 ensaios por 2 ecrãs, ativados dinamicamente pelo movimento dos visitantes via sensor Kinect e motor Unity.

Estado Base — Meta-Paisagem
Ambiente audiovisual contemplativo que evoca as qualidades sensoriais das paisagens rurais; paisagens sonoras ambientes convidam à reflexão.
Zona 1 — Voz Etnográfica
2 participantes centrais desencadeiam sequências audiovisuais dialógicas com vozes rurais sobrepostas; co-criação etnográfica entre comunidades.
Zona 2 — Voz Etno-Poética
2 participantes laterais ativam orquestração multissensorial completa; ensaios poéticos amplificados; camadas sensoriais ocultas que ligam lugares ativadas. (Rancière, 2009)
VII
Pertinência e Contributos
Estudos Rurais · Etnografia Audiovisual · Investigação Baseada na Prática · Arte Contemporânea
Estudos Rurais
Metodologia interlocal e relacional em alternativa à análise de casos isolados; “terceiros lugares” através de montagem poética que perturba a temporalidade linear e a localidade singular.
Etnografia Audiovisual
O cinema expandido estende a representação etnográfica para além dos formatos documentais; produção de conhecimento participativa e imersiva. (Castaing-Taylor, 1996)
Investigação Baseada na Prática
Contributo original: dualidade sítio-específica + etno-poiesis + espacialização interativa do pensamento ensaístico como quadro metodológico integrado. (Barrett & Bolt, 2007)
Arte Contemporânea
O corpo como lugar de produção de significado; conhecimento incorporado que desafia a temporalidade linear. Diálogo com Akomfrah, Hutton e Russell. (Rancière, 2009; Bellour, 2012)
“Investigar com, e não apenas sobre os lugares”

Bibliografia Geral

  • [Akomfrah 2023] Akomfrah, J. (2023). Becoming Wind [Instalação vídeo multicanal]. Schirn Kunsthalle Frankfurt.
  • [Baptista 2016] Baptista, J. (2016). Parataxe e práticas artísticas contemporâneas.
  • [Barrett & Bolt 2007] Barrett, E., & Bolt, B. (Eds.). (2007). Practice as Research. I.B. Tauris.
  • [Bellour 2012] Bellour, R. (2012). La Querelle des dispositifs. P.O.L.
  • [Bishop 2012] Bishop, C. (2012). Artificial Hells. Verso.
  • [Bolt 2006] Bolt, B. (2006). Aesthetics and Agency.
  • [Bolt 2007] Bolt, B. (2007). The Magic is in Handling. In Barrett & Bolt (Eds.), Practice as Research (pp. 27–34). I.B. Tauris.
  • [Borowiecki 2016] Borowiecki, K. J. et al. (2016). Cultural Heritage in a Changing World. Springer.
  • [Casal 2009] Casal, J. (2009). Interlocalismo e dinâmicas rurais.
  • [Castaing-Taylor 1996] Castaing-Taylor, L. (1996). Iconophobia. Transition, 69, 64–88.
  • [Chion 2019] Chion, M. (2019). Audio-Vision (2nd ed.). Columbia University Press.
  • [Corrigan 2011] Corrigan, T. (2011). The Essay Film. Oxford University Press.
  • [Costa & Duarte 2025] Costa, L. G., & Duarte, S. N. (2025). What can places tell each other? [manuscript].
  • [Cresswell 2014] Cresswell, T. (2014). Place: An Introduction. Wiley-Blackwell.
  • [Didi-Huberman 2026] Didi-Huberman, G. (2026). L’Éboulis de l’être. Minuit.
  • [Falzon 2009] Falzon, M. (2009). Multi-Sited Ethnography. Ashgate.
  • [Gaiger 2009] Gaiger, J. (2009). Narrativas Estéticas e Comunidades.
  • [Gomes da Costa 2011] Gomes da Costa, L., & Gomes da Costa, R. (2011). Três anos em Nodar. Nodar.
  • [Groot & Abma 2021] Groot, B., & Abma, T. (2021). Boundary objects. IJERPH, 18(15).
  • [Heidegger 1962] Heidegger, M. (1962). Being and Time. Harper & Row. [1927]
  • [Howes 2005] Howes, D. (Ed.). (2005). Empire of the Senses. Berg.
  • [Hutton 2001] Hutton, P. (2001, 2002). Two Rivers [Vídeo]. 53 min. 16mm.
  • [Hymes 1981] Hymes, D. (1981). In Vain I Tried to Tell You. UPenn Press.
  • [Hymes 2003] Hymes, D. (2003). Now I Know Only So Far. Univ. Nebraska Press.
  • [Ingold 2000] Ingold, T. (2000). The Perception of the Environment. Routledge.
  • [Kaye 2000] Kaye, N. (2000). Site-Specific Art. Routledge.
  • [Kwon 2002] Kwon, M. (2002). One Place After Another. MIT Press.
  • [MacClancy 2015] MacClancy, J. (Ed.). (2015). Alternative Countrysides. Manchester University Press.
  • [Manovich 2001] Manovich, L. (2001). The Language of New Media. MIT Press.
  • [Merleau-Ponty 1945] Merleau-Ponty, M. (1945/2012). Phenomenology of Perception. Routledge.
  • [Pink 2015] Pink, S. (2015). Doing Sensory Ethnography (2nd ed.). Sage.
  • [Prendergast 2009] Prendergast, M. (2009). The Turn to Poetry. Inquiry, 24(1), 54–61.
  • [Rancière 2009] Rancière, J. (2009). The Emancipated Spectator. Verso.
  • [Rascaroli 2017] Rascaroli, L. (2017). The Personal Camera. Wallflower Press.
  • [Russell 2017] Russell, B. (2017). Good Luck [Filme]. 143 min. 16mm.
  • [Star & Griesemer 1989] Star, S. L., & Griesemer, J. R. (1989). Boundary Objects. Social Studies of Science, 19(3), 387–420.
  • [Youngblood 1970] Youngblood, G. (1970). Expanded Cinema. Dutton.