Arte Rural Dialógica
Criações Artísticas Multimodais entre Lugares, Comunidades e Sentidos Rurais do Sul da Europa
Arte em contexto rural
Etnografia audiovisual
Arte sítio-específica
Etno-poiesis
Cinema expandido
Instalação interativa
Diálogo interlocal
III. Quadro ConceptualIV. Metodologia
V. Os Nove EnsaiosVI. Instalação
VII. ContributosBibliografia
Esta investigação emerge de uma vida de experiência vivida entre mundos urbanos e rurais. Nascido de pais que emigraram de uma região rural para Lisboa, o investigador cresceu a oscilar entre duas realidades — a periferia multicultural da capital e os vales pristinos do rio Paiva em Viseu Dão Lafões. Em 2004, um regresso deliberado a esse mundo rural conduziu à fundação da Binaural Nodar – Associação Cultural, que desde então acolheu mais de 175 artistas e investigadores de mais de 20 países em residência artística.
Ao longo de duas décadas de atividade curatorial, artística e editorial no Sul da Europa rural — incluindo projetos em Espanha, Itália, Uruguai e Brasil — o investigador desenvolveu um comprometimento sustentado com a complexidade dos lugares rurais: as suas identidades, transformações e afinidades interlocalistas. Esta investigação doutoral em Criação Artística (Universidade de Aveiro / ID+ / LiDA, 2023–2026) formaliza essa experiência acumulada numa metodologia baseada na prática.
A questão central: como pode a prática artística, através de uma metodologia interlocal e multimodal, captar e tornar visíveis as relações — frequentemente invisíveis — entre lugares rurais geograficamente distantes mas culturalmente afins? (Borowiecki et al., 2016; MacClancy, 2015; Figueiredo et al., 2011)
A investigação situa-se na intersecção de quatro campos estabelecidos. Na etnografia sensorial, o trabalho de Pink (2015) e do Sensory Ethnography Lab de Harvard (Castaing-Taylor, 1996) enquadra uma abordagem que privilegia o conhecimento incorporado e multissensorial sobre a descrição textual — reconhecendo que o investigador não reivindica o papel de etnógrafo no sentido disciplinar.
A tradição do ensaio audiovisual como “forma que pensa” (Corrigan, 2011; Rascaroli, 2017) — exemplificada pelo cinema de planos longos de Hutton em Two Rivers (2001–2002) e pela montagem dialética de Russell em Good Luck (2017) — modela como os ritmos sensoriais podem evocar conexões interlocalistas sem apagar a diferença.
A arte sítio-específica fornece a âncora paradigmática através da crítica de Kwon à expansão do campo para além de um lugar singular (2002). Por fim, o cinema expandido — de Youngblood (1970) a Akomfrah (2023) e ao debate de Bellour sobre a querela dos dispositivos (2012) — enquadra a transição dos ensaios lineares para a instalação interativa.
Esta investigação inscreve-se na investigação artística baseada na prática: os quadros teóricos não são aplicados externamente como grelhas analíticas — são operacionalizados como dispositivos ativos que orientam diretamente o trabalho de campo, a captação audiovisual, a montagem e a instalação. (Barrett & Bolt, 2007; Bolt, 2007)
O lugar é entendido — seguindo o Dasein de Heidegger (1927/1962) — como modo de ser-no-mundo, enquanto Didi-Huberman (2026) garante que a investigação resiste a noções de origens fixas: o lugar é dinâmico, poroso e relacional.
A metodologia segue uma abordagem empírico-poética desenvolvida dentro de um campo operativo dialógico. O investigador não é etnógrafo no sentido disciplinar: esta dimensão quase-etnográfica existe apenas no espaço da prática artística — cinema experimental, ensaio audiovisual e instalação. (Castaing-Taylor, 1996)
Cada ensaio aplica o esquema metodológico do capítulo 6 — identificando a temática específica, a tipologia relacional (espelho, contraste, salto/viagem, analogia) e a forma como cada dimensão (paisagística, etnográfica, histórica, literária, poética) se concretiza naquele encontro interlocal. (Costa & Duarte, 2025)
A transição do ensaio audiovisual linear para o espaço instalativo inscreve-se no debate de Bellour sobre os limites do dispositivo cinematográfico (2012). Inspirada na montagem multicanal de Akomfrah (2023), a instalação distribui 54 videoclipes de todos os 9 ensaios por 2 ecrãs, ativados dinamicamente pelo movimento dos visitantes via sensor Kinect e motor Unity.
Bibliografia Geral
- [Akomfrah 2023] Akomfrah, J. (2023). Becoming Wind [Instalação vídeo multicanal]. Schirn Kunsthalle Frankfurt.
- [Baptista 2016] Baptista, J. (2016). Parataxe e práticas artísticas contemporâneas.
- [Barrett & Bolt 2007] Barrett, E., & Bolt, B. (Eds.). (2007). Practice as Research. I.B. Tauris.
- [Bellour 2012] Bellour, R. (2012). La Querelle des dispositifs. P.O.L.
- [Bishop 2012] Bishop, C. (2012). Artificial Hells. Verso.
- [Bolt 2006] Bolt, B. (2006). Aesthetics and Agency.
- [Bolt 2007] Bolt, B. (2007). The Magic is in Handling. In Barrett & Bolt (Eds.), Practice as Research (pp. 27–34). I.B. Tauris.
- [Borowiecki 2016] Borowiecki, K. J. et al. (2016). Cultural Heritage in a Changing World. Springer.
- [Casal 2009] Casal, J. (2009). Interlocalismo e dinâmicas rurais.
- [Castaing-Taylor 1996] Castaing-Taylor, L. (1996). Iconophobia. Transition, 69, 64–88.
- [Chion 2019] Chion, M. (2019). Audio-Vision (2nd ed.). Columbia University Press.
- [Corrigan 2011] Corrigan, T. (2011). The Essay Film. Oxford University Press.
- [Costa & Duarte 2025] Costa, L. G., & Duarte, S. N. (2025). What can places tell each other? [manuscript].
- [Cresswell 2014] Cresswell, T. (2014). Place: An Introduction. Wiley-Blackwell.
- [Didi-Huberman 2026] Didi-Huberman, G. (2026). L’Éboulis de l’être. Minuit.
- [Falzon 2009] Falzon, M. (2009). Multi-Sited Ethnography. Ashgate.
- [Gaiger 2009] Gaiger, J. (2009). Narrativas Estéticas e Comunidades.
- [Gomes da Costa 2011] Gomes da Costa, L., & Gomes da Costa, R. (2011). Três anos em Nodar. Nodar.
- [Groot & Abma 2021] Groot, B., & Abma, T. (2021). Boundary objects. IJERPH, 18(15).
- [Heidegger 1962] Heidegger, M. (1962). Being and Time. Harper & Row. [1927]
- [Howes 2005] Howes, D. (Ed.). (2005). Empire of the Senses. Berg.
- [Hutton 2001] Hutton, P. (2001, 2002). Two Rivers [Vídeo]. 53 min. 16mm.
- [Hymes 1981] Hymes, D. (1981). In Vain I Tried to Tell You. UPenn Press.
- [Hymes 2003] Hymes, D. (2003). Now I Know Only So Far. Univ. Nebraska Press.
- [Ingold 2000] Ingold, T. (2000). The Perception of the Environment. Routledge.
- [Kaye 2000] Kaye, N. (2000). Site-Specific Art. Routledge.
- [Kwon 2002] Kwon, M. (2002). One Place After Another. MIT Press.
- [MacClancy 2015] MacClancy, J. (Ed.). (2015). Alternative Countrysides. Manchester University Press.
- [Manovich 2001] Manovich, L. (2001). The Language of New Media. MIT Press.
- [Merleau-Ponty 1945] Merleau-Ponty, M. (1945/2012). Phenomenology of Perception. Routledge.
- [Pink 2015] Pink, S. (2015). Doing Sensory Ethnography (2nd ed.). Sage.
- [Prendergast 2009] Prendergast, M. (2009). The Turn to Poetry. Inquiry, 24(1), 54–61.
- [Rancière 2009] Rancière, J. (2009). The Emancipated Spectator. Verso.
- [Rascaroli 2017] Rascaroli, L. (2017). The Personal Camera. Wallflower Press.
- [Russell 2017] Russell, B. (2017). Good Luck [Filme]. 143 min. 16mm.
- [Star & Griesemer 1989] Star, S. L., & Griesemer, J. R. (1989). Boundary Objects. Social Studies of Science, 19(3), 387–420.
- [Youngblood 1970] Youngblood, G. (1970). Expanded Cinema. Dutton.