Esto de migrar qué sensación tan desparramada

Investigação · Residências Artísticas

«Esto de migrar qué sensación tan desparramada»

Memória, voz e território na residência Ecos da Ida e do Retorno, Vouzela 2023

Dispositivo especular numa floresta, Serra de Vouzela
O dispositivo especular na Serra de Nossa Senhora do Castelo, durante a residência «Ecos da Ida e do Retorno». Binaural Nodar — Vouzela, Portugal, 2023. Foto: Luciano Piccilli.

Em março de 2023, o artista sonoro argentino Luciano Piccilli chegou a Vouzela para uma residência da Binaural Nodar centrada nas dinâmicas migratórias dos territórios rurais da região de Viseu Dão-Lafões. Dessa estadia nasceu «Esto de migrar qué sensación tan desparramada»“Isto de migrar, que sensação tão derramada” —, uma peça sonora e escultórica que haveria de se tornar o eixo do seu trabalho final de mestrado em Arte Sonora pela UNTREF (Universidade Nacional de Tres de Febrero, Argentina). Partilhamos aqui uma versão adaptada e reduzida desse texto, com imagens do processo e da instalação.

Uma pergunta que vem de longe

Há mais de uma década, Piccilli migrou das terras fronteiriças do litoral argentino para Buenos Aires. Essa experiência ficou a trabalhar em silêncio até se tornar, anos depois, o motor de uma série de projetos sobre identidade, memória e território. «Como é que a memória afetiva do território ausente atua sobre a perceção do espaço presente em quem migrou?», pergunta o artista na introdução do seu trabalho. Não é uma questão que se responda de uma vez: é antes um fio que atravessa as três intervenções que compõem a série — em Portugal, na Argentina e, mais tarde, em Misiones — e que aqui contamos a partir da primeira, nascida em Vouzela.

Antes de chegar a Portugal, Piccilli tinha reparado num fenómeno banal: o espelho retrovisor de um autocarro, que vibrava com o motor em ralenti e devolvia uma imagem desfocada, “como se de uma catarata se tratasse”. Essa observação — que ligava vibração sonora e degradação da imagem — tornou-se o princípio técnico e poético de todo o projeto.

Ecos da Ida e do Retorno, em Vouzela

Ecos da Ida e do Retorno é um projeto da Binaural Nodar integrado no 16.º ciclo de residências artísticas em zonas rurais da região de Viseu Dão-Lafões. A convocatória propunha aos artistas convidados abordar as migrações destes territórios: por um lado, o êxodo histórico de portugueses que, em situações sociais e económicas extremas, partiram para outros continentes; por outro, a imigração mais recente de pessoas vindas de Angola, São Tomé e Príncipe, Brasil e outros países, que hoje reconfiguram a identidade destas comunidades rurais.

Durante a estadia, Piccilli gravou entrevistas com migrantes residentes na região, pedindo-lhes que descrevessem, como se fosse um postal, a paisagem que consideravam mais representativa da sua terra de origem. «Curiosamente, a maioria destes relatos trazia-nos sempre pontos muito próximos do mar», nota o artista.

Entrevista a Joicelander Santiago
Entrevista a Joicelander Santiago (São Tomé e Príncipe).
Entrevista a Dolores Rodrigues
Entrevista a Dolores Rodrigues (Portugal), Vouzela, 2023.

“O cheiro a mar, a alegria, o amor e a felicidade, acima de tudo.” — Sónia Couceiro, mulher migrante de Angola, a falar da sua terra

A instalação foi colocada num dos pontos mais altos da região, a Serra de Nossa Senhora do Castelo, com o espelho voltado para a fronteira. «As paisagens que estes migrantes descrevem não pertenciam ao território onde este dispositivo especular se encontrava imerso. Ou seja, surge a distância com o lugar de origem, algo como um canto à terra distante», escreve Piccilli.

Mapa topográfico de Vouzela e Serra de Nossa Senhora do Castelo
Mapa de Vouzela, com a Serra de Nossa Senhora do Castelo assinalada.
Postal antigo de Vouzela e Monte do Castelo
“Vouzela — Vista parcial da Vila e Monte do Castelo”, postal de época.

O espelho que fala

No centro da peça está aquilo que Piccilli chama “transdução”: as vozes gravadas nas entrevistas são reproduzidas contra a própria placa espelhada, que funciona simultaneamente como superfície refletora e como membrana sonora. Microfones piezoelétricos captam a vibração provocada pelo som sobre o material e devolvem-na, em cadeia, numa gravação e reprodução recursivas — um procedimento a que o artista chama “dobra sónica”, em diálogo direto com I Am Sitting in a Room (1970), de Alvin Lucier. O processo em tempo real foi desenvolvido em conjunto com o artista Julián Di Pietro, num patch de programação em Max/MSP.

O resultado é um objeto a que o próprio artista chama “el hablante” — o falante — porque o espelho deixa de refletir apenas de forma ótica e passa a vibrar fisicamente com as vozes que o atravessam, desfocando pouco a pouco a imagem que devolve. «Há uma ideia de trânsito, um percurso das vozes através da membrana, um movimento constante desses relatos na sua passagem do significado ao som», escreve Piccilli.

Dispositivo especular pendurado numa árvore, refletindo o céu
Uma segunda montagem do dispositivo, na mesma serra. Residência Ecos da Ida e do Retorno, Binaural Nodar — Vouzela, 2023.

“Quem se aproxima da membrana, espelhada e trémula, ouvirá logo a chegada de um rumor, à distância. E quem se deixar levar pela escuta, por ouvidos sem pálpebras, poderá semicerrar os olhos para ver um esquecimento e, talvez, constate em breve que o rumor não chega. Já ali estava.” Marcelo Turdo, psicólogo e escritor, sobre o encontro com a peça na galeria Acéfala (2024)

A residência culminou com uma apresentação pública na Escola Técnica de Vouzela, onde alunas e alunos se aproximaram do dispositivo e das vozes que este devolvia, transformadas.

Apresentação pública do dispositivo na Escola Técnica de Vouzela
Apresentação pública na Escola Técnica de Vouzela, 2023.
Estudantes transportam o dispositivo espelhado pela rua
Apresentação pública na Escola Técnica de Vouzela, 2023.

Memória, voz e território

Do ponto de vista teórico, o trabalho de Piccilli dialoga sobretudo com dois autores. Em Gilles Deleuze, encontra o conceito de “pliegue” (dobra) para pensar a memória: não um armazenamento linear do passado, mas uma estrutura dinâmica em que passado e presente se entrelaçam continuamente, formando camadas de sentido — tal como os territórios físicos, também eles atravessados por dinâmicas sociais, culturais e políticas em permanente transformação. Em Paul Ricoeur, encontra a ideia de “lugares de memória”: espaços que funcionam como lembretes contra o esquecimento, enquanto os relatos transmitidos oralmente “voam como as palavras”.

A voz ocupa aqui um lugar central. Citando Mladen Dolar, Piccilli lembra que “a voz é o suporte material do significado e, no entanto, em si mesma, não contribui para ele” — é veículo, não conteúdo. Nas suas próprias palavras: «De onde vem um sujeito? A entoação, o sotaque e o ritmo contam-nos uma paisagem. Interessa-me poder ligar estes modos como o som pode afetar a paisagem, como metáfora de uma problemática sociocultural: a migração de pessoas gera novas identidades territoriais — e então, como é que este processo modifica o corpo-voz ao mesmo tempo que também modifica a noção de território?»

Da serra de Vouzela ao mundo

«Esto de migrar qué sensación tan desparramada» foi a primeira das três intervenções site-specific que compõem a série de trabalhos apresentada por Piccilli na sua tese. Em agosto de 2023, uma segunda versão — desta vez como instalação non-site, no sentido dado por Robert Smithson — foi exibida na exposição coletiva “Dónde, Espacios Transpuestos”, na galeria Acéfala, em Buenos Aires, com curadoria de Mene Savasta Alsina, no âmbito de um protocolo entre a UNTREF e a galeria. Em 2024, uma terceira intervenção, “Antes el Monte”, levou o mesmo procedimento a Profundidad, em Misiones, junto à fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai, desta vez recolhendo testemunhos de comunidades Mbya-guaraní sobre a desflorestação da mata paranaense.

“Não se trata simplesmente de desconstruir o relato, mas antes de dobrar e desdobrar a voz através da paisagem.”Luciano Piccilli

No fim, o projeto propõe pensar a memória não como algo fixo a preservar, mas como um processo em contínua dobra e desdobra — em que as experiências passadas se misturam, se reinterpretam, se transformam. «A memória afetiva do território ausente influi profundamente na forma como uma pessoa percebe o seu ambiente atual e presente, constituindo um elemento fundamental no desenvolvimento e na hibridação de novas identidades territoriais», escreve o artista na conclusão do seu trabalho. Ao devolver, desfocadas, as vozes de quem migrou, o espelho de Vouzela transformou-se — por um instante — num portal entre territórios distantes.

Ficha técnica

Título original
Esto de migrar qué sensación tan desparramada
Autor
Luciano Piccilli
Orientação
Mene Savasta Alsina
Contexto
Trabalho final — Especialização em Arte Sonora, UNTREF (Universidade Nacional de Tres de Febrero), julho de 2024
Residência de origem
Ecos da Ida e do Retorno, Binaural Nodar — 16.º ciclo de residências artísticas em zonas rurais, Viseu Dão-Lafões, Vouzela, Portugal, março de 2023
Programação (dispositivo)
Julián Di Pietro
Entrevistados em Vouzela
Dolores Rodrigues, Sónia Couceiro, Abílio Pereira da Silva, Breno Berenger, Yago Ribeiro, Ana Carvalho, Claudio Duarte, Eliana VilaNova, Jefferson Júnior, Joicelander Santiago, Shawn Kapp, Silvie Fernandes

Este texto é uma versão adaptada e reduzida, traduzida do espanhol, do trabalho final de mestrado do autor, publicada com a sua autorização. A versão integral — com o desenvolvimento teórico completo e a documentação das três intervenções da série (Portugal, Argentina e Misiones) — está disponível mediante pedido à Binaural Nodar.

Bibliografia citada

  1. Ayala, R. (2013). Encuentro en el Estudio. Buenos Aires.
  2. Conquergood, D. (1989). Poetics, Play, Process, and Power: The Performative Turn in Anthropology. Text and Performance Quarterly. Estados Unidos.
  3. Cox, C. (2018). Sonic Flux. The University of Chicago.
  4. Deleuze, G. (1988). El pliegue. Paidós, Buenos Aires, 2005.
  5. Dolar, M. (2007). Una voz y nada más. Manantial, Buenos Aires, 2024.
  6. Guasch, A. M. (1996). El arte en la posmodernidad. Nerea, Espanha.
  7. Kanski, J. (1970). Oftalmología Clínica. Elsevier, Espanha.
  8. Liut, M. (2009). Notas al pie de la ciudad. Arte Sonoro para sitios y tiempos específicos. Buenos Aires.
  9. Perec, G. (1974). Especies de espacios. Montesinos, Mataró, 1999.
  10. Polti, V. (2011). Aproximaciones teórico-metodológicas al estudio del espacio sonoro. X Congreso Argentino de Antropología Social. Buenos Aires.
  11. Ramis, M. (2017). Lentísimo halo. Juana Molina, Buenos Aires.
  12. Ricoeur, P. (2000). La memoria, la historia y el olvido. Fondo de Cultura Económica, Buenos Aires, 2004.
  13. Rinaldi, G. (2008). Todas las voces todas.
  14. Smithson, R. (1971). Robert Smithson, el no emplazamiento y la otra espiral. masdearte.com.
  15. Turdo, M. (2024). Ensayo Ecos de Auditorio. Buenos Aires.
Imagens: cortesia de Luciano Piccilli e Binaural Nodar. Texto adaptado por Binaural Nodar, com autorização do autor, a partir do seu trabalho final de mestrado «Esto de migrar qué sensación tan desparramada» (UNTREF, 2024), para a área de Investigação de binauralmedia.org.