OUVIR, TOCAR E IMAGINAR O BARRO NEGRO
Residência Artística
Ana Carucci (Argentina)
19 de agosto – 7 de setembro de 2025
Ribolhos (Castro Daire, Portugal)
Uma coprodução entre a Binaural Nodar e o Município de Castro Daire, através da sua Biblioteca Municipal e da União de Freguesias de Mamouros, Alva e Ribolhos. Uma residência artística integrada no projeto Rede Tramontana, cofinanciado pelo programa Europa Criativa, que inclui parceiros de regiões montanhosas de Portugal, Espanha, França, Itália, Roménia, Albânia e Polónia.
As coisas / que podem ser usadas e não são usadas, / que estão à espera nas salas de estar, / nos estúdios, nos quartos, / são mais silenciosas e profundas / do que as outras. / […] / A espada / que não matou ninguém / é mais terrível / do que a espada / que matou.
Do poema Coisas.
[…] Agora que estou cego, continuo a sonhar com tigres, mas agora o sonho é perturbado, incoerente. O tigre aparece-me, mas é feito de madeira ou gesso; ou então, sou eu quem sonha, mas de uma forma estranha — como se o tigre sonhado estivesse a sonhar comigo.
Do poema Dreamtigers.
Excertos de El hacedor, 1960, de Jorge Luis Borges
Durante a sua residência artística em Ribolhos, Ana Carucci desenvolverá um conjunto de obras que entrelaça cerâmica, som e memória material, tomando como ponto de partida a técnica ancestral do barro negro e a sua profunda ligação ao entorno natural de Ribolhos. Este projeto surge do desejo de dialogar com uma tradição viva através da sua prática contemporânea, com a intenção de criar peças que desafiem categorias fixas.
Ana Carucci construirá uma série de objetos cerâmicos que funcionam como possíveis instrumentos, esculturas ou ambos ao mesmo tempo. Peças que produzem som, sugerem utilidade ou a contradizem; ativam um espaço poético entre o funcional e o inútil, o quotidiano e o simbólico. O cerne desta exploração reside na tensão entre funcionalidade e a evocação. Algumas peças terão apitos, enquanto outras incluirão ranhuras, texturas, cavidades e corpos vibratórios, semelhantes a idiofones de fricção, para explorar sons ténues, secos, ásperos, agudos ou ressonantes. A artista também irá gravar sons do ambiente circundante e do processo criativo, combinando-os posteriormente com os produzidos pelas peças para compor uma atmosfera sonora e material.
A artista está particularmente interessada em como o barro negro de Ribolhos se transformou quando o plástico irrompeu para substituí-lo, passando de servir necessidades concretas para se tornar num veículo de representação, de narrativas e de simbolismo. A partir dessa mudança, Ana Carucci pretende considerar os objetos como formas nas quais as regras de uso se expandem, se confundem e se sobrepõem. Essa transição do funcional para o simbólico permite-lhe explorar outras formas de relacionar-se com os objetos, mais abertas, sensíveis e vivas.
O motor central do trabalho de Ana Carucci reside na relação entre natureza e cultura, e neste projeto essa interseção toma forma: a argila como um material vivo e pleno de história, e a sua perspetiva como uma lente sensível filtrada pelo presente. A artista é atraída pelo que pode emergir neste diálogo entre a sua experiência tátil com o material, a memória desta prática, o que irá encontrar, o que irá trazer consigo e o que irá sonhar enquanto trabalha.
Ana Carucci é uma artista argentina atualmente radicada em Espanha. Ela dedica-se à pintura, ao desenho e ao som, criando instalações artísticas, música e paisagens sonoras.
As suas obras surgem da exploração dos espaços entre a abstração e a literalidade, brincando com a linguagem e a memória dos sentidos. A natureza e a sua relação com a cultura são um tema recorrente na sua prática artística. Em 2022, Ana Carucci participou no programa de residência AADK Espanha e na residência Countdown Grabowsee em Berlim, Alemanha. Em 2024, participou no programa de residências artísticas “O cantar das nascentes” produzido pela Binaural Nodar. O seu trabalho Notebook 1 foi selecionado pelo Fundo de Artes Visuais da Argentina no contexto do seu prémio nacional em 2017.
A Binaural Nodar é uma estrutura cultural apoiada pela República Portuguesa – Cultura, Juventude e Desporto | Direção-Geral das Artes.