ESCUTAR A JUVENTUDE RURAL
Residência Artística
Com :
Adriana Lopes, (PT), Leele Jürjen (EE), Luís Costa (PT) e Sanae Mazouz (MA/IT)
30 junho a 12 de julho
Várzea de Calde (Viseu)
Uma produção da Binaural Nodar com o apoio do Município de Viseu, da Junta de Freguesia de Calde e do espaço artístico italiano Studio Florìda. Residência artística integrada no projeto Tramontana, uma rede de estruturas culturais que operam em contexto de montanha, cofinanciada pelo programa Europa Criativa.
Ser criança ou jovem no mundo rural português de até há meio século atrás, significava fazer parte de um processo de preparação para a vida adulta que começava em idades precoces e que incluía toda uma série de aprendizagens práticas ligadas à agricultura, à criação de gado, à vida doméstica, aos ofícios artesanais ao conhecimento da paisagem, etc. A sociabilidade era desenvolvida através da participação num corpo denso de tradições vindas de gerações anteriores: rituais de passagem, jogos, danças, cantares, etc., que proporcionavam sentidos inegáveis de pertença e de inclusão no grupo.
A transformação social das últimas décadas abalou de forma profunda o modelo de enraizamento dos jovens nascidos em aldeias, já que poucos jovens decidem permanecer no território rural onde nasceram. Paradoxalmente as paisagens naturais e rurais são hoje procuradas por muita gente, sendo que estes contextos têm o potencial de proporcionar aos jovens um certo realinhamento entre corpo e mente, particularmente no contexto atual de crescimento dos níveis de isolamento social e de outras problemáticas psicossociais.
A Binaural Nodar celebra em 2025 o 20º ano consecutivo do seu programa de residências artística, acolhendo entre 30 junho e 12 de julho três projetos artísticos que abordam aspetos da relação entre a juventude e os contextos rurais.
Adriana Lopes (Portugal)
Focado em formas de sociabilidade lúdica, o projeto de Adriana Lopes procura recolher memórias antigas de experiências de brincadeira e modos presentes de brincar, num mesmo espaço rural. Por um lado, pretende uma revisita ao saber e fazer tradicional; enquanto, por outro lado, sonda a relação da juventude rural atual com esse artesanato de formas e ideias (o que é coincidente, o que se aparta).
A formação académica em antropologia permitiu a Adriana Lopes experimentar o método etnográfico em multimodalidade, articulando-o com práticas artísticas contíguas – designadamente, o filme, a fotografia e o desenho. Tomando o encontro como premissa para o conhecimento, a artista vai cartografando o seu corpo-arquivo em movimento e em relação com as coisas encontradas, para pensar, manejar e refletir o mundo. Aprofundando a ontologia da práxis do teatro, Adriana Lopes reflete igualmente sobre a natureza problemática da representação em veículos de expressão – não só na atividade dramática, como na escrita e na imagem.
Leele Jürjen (Estónia)
O projeto de Leele Jürjen explora a trajetória de uma jovem que luta para romper as barreiras emocionais que construiu para se proteger das expectativas e do julgamento da sociedade. Também reflete o caminho pessoal da artista em direção à abertura, à autoaceitação e à superação da vergonha, dando ênfase à empatia sobre o julgamento. Profundamente enraizada nas culturas indígenas de Võro e Seto, no sudeste da Estónia, o trabalho da artista é moldado por uma rica herança transmitida pela sua mãe, Anna Hints, uma aclamada cineasta e artista estónia que foi artista residente na Binaural Nodar em 2010. Quinze anos depois, ao viajar sozinha como artista para a mesma zona rural de Portugal, Leele procura reconectar-se com as suas memórias de infância de total liberdade criativa, transformando essa experiência de regresso numa peregrinação terapêutica e transformadora.
Leele Jürjen, nascida em 2006 em Tartu, Estónia, é uma violoncelista e vocalista pioneira que combina a formação clássica com a música tradicional estónia. Iniciando o seu percurso musical com o kannel e o violoncelo sob a orientação de professores conceituados como Leho Karin e Reet Mets, Leele tornou-se a primeira violoncelista do Departamento de Música Tradicional da Heino Eller Music College, onde explorou a música folclórica através do seu instrumento de formas inovadoras. Profundamente enraizada na herança cultural dos povos Võro and Set, uma que foi transmitida por sua mãe, Anna Hints, Leele tem dado vida a estes sons enquanto membro fundador do trio folk Nova Lyre, misturando línguas antigas e arranjos contemporâneos.
Luís Costa (Portugal) e Sanae Mazouz (Marrocos/Itália)
Dois artistas de gerações e contextos de origem diferentes descobrem que ambos se relacionam de forma direta com o mundo de jovens que lutam contra sentimentos de isolamento e desespero. O projeto de Luís Costa e de Sanae Mazouz entrelaçará possivelmente a fotografia, o desenho, a vídeo performance e a arte sonora, na senda de uma reflexão multimodal através de experiências vívidas extraídas do denso mundo interior de alguns jovens concretos. Igualmente inspirado nas dificuldades da migração e da integração, o trabalho enfatiza as experiências de jovens que navegam pelas suas emoções, culturas e identidades, procurando em simultâneo encontrar compreensão e empatia, propondo a hipótese de que alguma esperança de regeneração pode surgir do grito e da expressão sem filtros.
Luís Costa é investigador de doutoramento em criação artística na Universidade de Aveiro e na Escola Superior de Artes e Design (Caldas da Rainha). Desde 2004, trabalha como curador e programador de práticas artísticas contemporâneas e como artista sonoro e media. É fundador e coordenador da Binaural Nodar desde 2006. É autor/editor de doze livros dedicados à investigação artística sonora/media e à etnografia rural. Desde 2007 tem desenvolvido uma intensa atividade de criação sonora e audiovisual em contextos rurais, através da qual reflete sobre as especificidades e as mudanças paisagísticas, sociais e culturais dos lugares.
Sanae Mazouz (nascida em 1999, em El Brouj, Marrocos) é uma artista multidisciplinar que trabalha principalmente com pintura, fotografia e vídeo performance. Nascida na região de Chaouia, em Marrocos, onde viveu até aos nove anos, Sanae migrou para Itália para se reunir com o pai. Formada em Química Industrial no ensino secundário, está a frequentar o último ano do curso de Belas-Artes, com especialização em Pintura, na Accademia Ligustica di Belle Arti di Genova, e colaborando regularmente com a organização artística Studio Florìda, localizada no coração da cidade antiga de Génova.
A Binaural Nodar é uma entidade apoiada pela República Portuguesa – Cultura | Direção-Geral das Artes.