LOCUS IN QUO
Uma Criação Artística de Manuela Barile

Sobre o Projecto

Locus in quo – que significa “O lugar onde alguma coisa acontece” – é o título genérico de um corpo de trabalhos baseados num único tema: o sentido dos lugares. O projecto é composto por duas instalações vídeo + uma série de fotografias e de objectos (Pesa e ), uma instalação sonora / performance (Birdsoundcage) e um concerto / performance ao vivo (Oikos). Estas componentes operam seja como uma obra única, seja como trabalhos independentes, embora conectados entre si.

«As nossas sensações, as nossas percepções, a nossa memória, a nossa vida não podem deixar de ser relatadas e representadas pela relação a um lugar. Nós somos o nosso lugar, os nossos lugares: todos os lugares, reais ou imaginários que vivemos, aceitámos, rejeitámos, combinámos, eliminámos e inventámos. Somos igualmente a relação que soubemos e quisemos estabelecer com os lugares» (Vito Teti, “Il senso dei luoghi”).

A modernidade abala cada vez mais o sentido dos lugares, mais que tudo dispõe e mede extensões, sem atender tanto aos aspectos culturais, aos genius loci dos lugares, a toda uma série de aspectos que vão da memória e da tradição aos aspectos da conformação natural e ecológica do território, às simbolizações rituais e sacras depositadas na terra como sinais indeléveis, à ética da responsabilidade em relação aos vindouros. A modernidade concebe cada lugar como “uma dimensão puramente geométrica a preencher com volumetrias arbitrárias” (Luisa Bonesio), assistindo-se hoje a uma paulatina degradação geológica, ambiental e cultural dos territórios.


PESA
Instalação Vídeo

Pesa é uma instalação vídeo concebida a partir de uma performance site-specific realizada em Outubro 2008 durante uma residência artística no MoKS, Estónia. A mesma consistiu na construção de um ninho em vários lugares onde eu tive um sentimento de pertença (a casa abandonada, os abismos do lago, a pedra perto do lago, etc.)

O construir, viver e abandonar um lugar no qual nos “sentimos em casa” é o processo representado nesta instalação. “Sentir” para mim significa “viver” e viver é, como refere Heidegger, “habitar”. Existem lugares que mais do que outros permanecem connosco, não necessariamente aqueles onde se habitou mais tempo.

Os lugares escolhem-nos, roubam-nos, marcam-nos. Abandonar esses lugares é deixar as nossas ligações, ir para fora de nós, despidos das nossas certezas.

Pesa descreve a abordagem de um indivíduo que com melancolia e consciência, deixa o lugar com que sente uma forte conexão para  iniciar um caminho na procura da sua “nova casa”.



Instalação Vídeo

As aldeias abandonados são lugares que a sociedade moderna tende a ignorar ou a esquecer. Eles são considerados lugares mortos e inúteis, um sinal de falhanço. Eles representam um passado completamente esquecido. Hoje estas aldeias deixaram de ter significado.

“CÁ” é um projecto que pretende devolver um significado às aldeias abandonada. As aldeias abandonados são lugares com uma forte identidade, são lugares vivos apesar serem desabitados, embora a natureza os vá progressivamente absorvendo. São lugares ainda vivos, porque carregados de memória. Eles são uma ponte com o passado… o nosso passado.

Hoje a nossa abordagem na relação com a memória é cada vez mais ligada a uma lógica museológica “embalsamadora” que entende a memória como armazenamento e não como fluxo. A memória não se deposita como uma série de dados disponíveis num arquivo, que basta consultar quando se precisa. A memória não é um centro comercial onde mais ou menos ordenados jazem abandonadas velhas ferramentas agora inutilizadas. A memória é algo mais: é um herança que somos chamados a aceitar, tendo em vista o futuro.

O meu objectivo não é fazer renascer o passado, mas herdá-lo de alguma forma. Herdar o passado significa sermos capazes de torná-lo mais actual, dando-lhe novas formas. Significa continuar o que os outros nos deixaram e tornarmo-nos testemunhas de uma história a preservar e a continuar. O meu objectivo é seguir o trilho, colher, interrogar os sinais de vida e de memória, onde tudo parece acabado. Seguir os trilhos da memória significa uma reapropriação das próprias raízes para restabelecer a ligação àquele sentido de autenticidade que se vai perdendo.


BIRDSOUNDCAGE
Instalação Sonora e Vídeo

Birdsoundcage é uma gaiola de pássaro recriada sonoramente numa sala vazia e asséptica. Lá dentro jaz um corpo imóvel, completamente enfaixado, que para sobreviver auto constrói uma gaiola à sua medida feita de próteses. As próteses são obtidas através de ligaduras nos ramos de árvore fixadas nos membros inferiores e superiores. A matéria orgânica de que são feitas as próteses remete para os restos de um ninho, um lugar do passado que já não existe.

Birdsoundcage é um lugar simbólico ao qual somos convidados a dar um sentido.


OIKOS
Acção Sonora e Vocal Site-Specific

A casa é um lugar; a casa é uma metáfora para o nosso corpo e é igualmente o nosso pequeno universo. Quando estamos na nossa casa, sentimo-nos protegidos, no entanto quando estamos na nossa casa vazia sentimo-nos perdidos. O lugar-casa transforma-se novamente em espaço.

Em “Oikos”, o espaço performativo é transformado numa espécie de casa, uma casa vazia, uma casa abandonada. A acção tem em consideração dois níveis: o vertical, representado pelas paredes, as escadas, o próprio edifício; e o horizontal representado pelo chão, o balcão, o patamar, o terraço. A parede é uma guardiã de memórias na qual a performer concede sons com a sua voz. O espaço de performance torna-se num instrumento musical e os seus objectos transformam-se em objectos sonoros para uma composição em tempo real. A acção começa e acaba com um trabalho capella com voz a solo. A voz oscila entre o sonho e a vigília, atracção e repulsa. Passa desde situações trágicas e dramáticas até ao cómico e alegre. A casa é amiga e inimiga; prisão e abrigo.

Ao nível do timbre, a voz da artista passa desde sons cristalinos e subtis (que relembra o cântico das sereias, o chilrear de um pássaro, etc.) até a sons selváticos e sombrios (lamentações, cânticos de morte, etc.). A improvisação da artista passa de situações trágicas e dramáticas ao cómico e alegre, aplicando um espelho nas condições da existência humana.

A voz da performer é ouvida simultaneamente de forma acústica (em certas ocasiões) e electroacústica. Ao usar microfones de contacto, tanto os sons do seu corpo e os sons do exterior da sala e do edifício serão amplificados com os quais a performer irá interagir. A performer durante a sua acção performativa e vocal e ao aproximar-se e afastar-se da audiência, conquista activamente o ouvinte num jogo de distância (perto-longe) e direcção (alto-baixo / esquerda-direita).


Informação Adicional:

http://www.manuelabarile.com/


FICHA TÉCNICA

Conceito e Direcção Artística: Manuela Barile
Performer Vocal e Composição Sonora: Manuela Barile
Gravações Sonoras de Campo: Manuela Barile, “Birdsoundcage” – Duncan Whitley (Inglaterra)
Registo e Montagem Vídeo: Manuela Barile
Voz Recitante: “Pesa” – Evelyn Müürsepp (Estónia)
Vozes Cantantes: “Pesa” – Anna Hints (Estónia), “Cá” – Cantores Tradicionais da Região de S. Pedro do Sul (Portugal)
Pós-produção de Som: “Pesa” – Rui Costa (Portugal), “Cá” e “Birdsoundcage” -  Duncan Whitley (Inglaterra)
Composição Áudio Multicanal: “Birdsoundcage” – Duncan Whitley (Inglaterra)
Guarda-Roupa: Creazioni Ranieri (Bari, Itália), Brazukinha (Viseu, Portugal)
Residências Artísticas: Moks (Estónia) e Centro de Residências Artísticas de Nodar (Portugal)
Produção: Luis Costa e Carina Martins (Binaural)
Financiamento: