{"id":61,"date":"2008-08-27T13:24:18","date_gmt":"2008-08-27T12:24:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.binauralmedia.org\/news\/?page_id=61&#038;langswitch_lang=pt"},"modified":"2021-08-16T15:34:48","modified_gmt":"2021-08-16T15:34:48","slug":"manifesto","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.binauralmedia.org\/news\/manifesto","title":{"rendered":"Manifesto"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-one-full fusion-column-first fusion-column-last\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-margin-bottom:0px;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-flex-column-wrapper-legacy\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><h1><strong>O CASO NODAR<br \/>\nARTE E VIDA EM COMUNIDADES RURAIS PORTUGUESAS<\/strong><\/h1>\n<h2><strong>Pre\u00e2mbulo<\/strong><\/h2>\n<blockquote>\n<p>Ouvi contar que outrora, quando a P\u00e9rsia<br \/>\nTinha n\u00e3o sei qual guerra,<br \/>\nQuando a invas\u00e3o ardia na Cidade<br \/>\nE as mulheres gritavam,<br \/>\nDois jogadores de xadrez jogavam<br \/>\nO seu jogo cont\u00ednuo<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Em \u201cOs Jogadores de Xadrez\u201d<br \/>\n&#8220;Odes&#8221; de Ricardo Reis<\/p>\n<h2><\/h2>\n<h2><strong>Pontos de Partida<\/strong><\/h2>\n<h2>#1<\/h2>\n<p>Eis-nos chegados a um tempo em que muitos sentem que quase tudo no que respeita \u00e0 arte (conceitos, estilos, pr\u00e1ticas, media) foi pensado, testado ou discutido. Utilizando a met\u00e1fora do jogo, podemos pensar que as pe\u00e7as est\u00e3o h\u00e1 muito inventariadas, sendo que apenas faltar\u00e3o experimentar algumas (e derradeiras) combina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h2>#2<\/h2>\n<p>A pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de vanguarda(s) \u00e9 hoje em dia, e em grande medida, um clich\u00e9. Tantos se convocam (ou se fazem convocar pelos media) como fazendo parte de alguma vanguarda ou alternativa, de tal forma que, no limite, podemos ironizar dizendo que s\u00e3o os cl\u00e1ssicos os verdadeiros alternativos.<\/p>\n<h2>#3<\/h2>\n<p>Muitas das pr\u00e1ticas art\u00edsticas contempor\u00e2neas parecem afastar-se dos impulsos sens\u00edveis genu\u00ednos, ou por estarem demasiado dependentes de mecanismos de cultura de massas ou por terem na sua g\u00e9nese processos intelectuais ou tecnol\u00f3gicos que funcionam de forma circular ou isolada da realidade mais imediata (\u00edntima, social, politica).<\/p>\n<h2>#4<\/h2>\n<p>No caso espec\u00edfico das artes contempor\u00e2neas mais experimentais (sonoras, visuais ou performativas) \u00e9 comum ouvir-se entre os seus seguidores ou artistas que os p\u00fablicos s\u00e3o quase sempre os mesmos, na sua maioria outros artistas ou profissionais da cultura. Mais uma evid\u00eancia de um sistema alimentado em circuito fechado.<\/p>\n<h2>#5<\/h2>\n<p>Convocando o mote inicial, pergunta-se: n\u00e3o ser\u00e1 tamb\u00e9m que muitos artistas contempor\u00e2neos evidenciam uma indiferen\u00e7a l\u00fadica de quem escuta de longe o fluir do mundo, o qual apenas \u00e9 notado por \u201cperturbar a concentra\u00e7\u00e3o dos jogadores\u201d?<\/p>\n<h2><\/h2>\n<h2><strong>Reptos<\/strong><\/h2>\n<h2>#1<\/h2>\n<p>Urge cada vez mais devolver a arte \u00e0 vida, potenciando a aten\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas m\u00ednimas, n\u00e3o tanto aos grandes ideais ou teorias. Essa amplifica\u00e7\u00e3o sensorial do \u00edntimo, do esquecido, do perif\u00e9rico \u00e9 (ainda) hoje uma necessidade imperativa.<\/p>\n<h2>#2<\/h2>\n<p>H\u00e1 que promover esta aproxima\u00e7\u00e3o entre arte e vida de forma radical: colocando em comunica\u00e7\u00e3o directa artistas com realidades \/ comunidades n\u00e3o abrangidas pelos radares p\u00fablicos ou pol\u00edticos (perif\u00e9ricas, marginais, rurais, etc.). Esta radicalidade assenta num retorno a uma certa pureza original da arte, de um sentido menos mediado de forma exclusiva por processos de auto-refer\u00eancia e de cr\u00edtica.<\/p>\n<h2>#3<\/h2>\n<p>Arte e especificidade. Um dos paradigmas gerados pelas rupturas est\u00e9ticas dos anos 60, sujeito ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas a diversas muta\u00e7\u00f5es e questionamentos. N\u00e3o obstante, como pr\u00e1tica e metodologia, pensamos que \u00e9 ainda um paradigma v\u00e1lido para a produ\u00e7\u00e3o de formas art\u00edsticas de ac\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o com a realidade, contando que alguns dos seus potenciais equ\u00edvocos sejam acautelados.<\/p>\n<h2>#4<\/h2>\n<p>O trabalho art\u00edstico baseado na interac\u00e7\u00e3o com grupos sociais n\u00e3o deve perder de vista a no\u00e7\u00e3o de que uma comunidade n\u00e3o constitui uma forma\u00e7\u00e3o social coerente e uniforme, mas sim um \u201cespectro inst\u00e1vel e (em certa medida) inoperante\u201d (na express\u00e3o de Miwon Kwon em \u201cOne place after another\u201d). Neste sentido, far\u00e1 mais sentido falar em context-specific art do que em site-specific art ou community-specific art. \u201cContexto\u201d como uma realidade mais din\u00e2mica e abrangente, menos sujeita a deriva\u00e7\u00f5es exclusivistas, puristas ou autorit\u00e1rias.<\/p>\n<h2>#5<\/h2>\n<p>Neste paradigma, o artista deve assumir o desafio ou risco de trabalhar com contextos novos, a necessidade de adapta\u00e7\u00e3o a circunst\u00e2ncias desconhecidas no contacto social directo, adaptando, reconfigurando e problematizando as linguagens, materiais e abordagens est\u00e9ticas.<\/p>\n<h2>#6<\/h2>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio um afastamento de um certo pendor antropol\u00f3gico (ainda muito presente) em que a comunidade \u00e9 pensada como uma mera portadora de hist\u00f3rias, de conhecimentos ou de viv\u00eancias e em que o artista se limita a receber essa informa\u00e7\u00e3o e a trabalhar a partir dela. O que se deve procurar, ao inv\u00e9s, \u00e9 um envolvimento m\u00fatuo, um encontro entre formas diferentes de viver, conceber e traduzir o mundo. O encontro entre o artista e o contexto n\u00e3o deve pois ser meramente instrumental (no sentido da recolha de elementos para o desenvolvimentos da obra) mas sim algo de org\u00e2nico, que se vai construindo naturalmente ao longo do tempo, que se baseia numa viv\u00eancia quotidiana e comunicativa. \u00c9 claro que este encontro exige disponibilidade m\u00fatua, abertura ao outro com o grau de \u201ctens\u00e3o\u201d e de imprevisto que lhe s\u00e3o inerentes por natureza.<\/p>\n<h2><\/h2>\n<h2><strong>O Caso Nodar<\/strong><\/h2>\n<h2>#1<\/h2>\n<p>O Laf\u00f5es Rural Art Lab coordenado pela Binaural\u00a0 Nodar, atuando em comunidade rurais de montanha no centro de Portugal (concelhos de S. Pedro do Sul e Vouzela), organiza e produz o desenvolvimento de projectos art\u00edsticos explorat\u00f3rios (com \u00eanfase nas artes sonoras e intermedia), seguidos de apresenta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas na regi\u00e3o. Os artistas residentes, no \u00e2mbito do desenvolvimento dos projectos art\u00edsticos, s\u00e3o encorajados a estabelecerem interac\u00e7\u00f5es com o local, seu espa\u00e7o geogr\u00e1fico e social, identidade e mem\u00f3ria.<\/p>\n<h2>#2<\/h2>\n<p>Desde Mar\u00e7o de 2006 que residiram temporariamente em Nodar mais de 150 artistas contempor\u00e2neos (na grande maioria n\u00e3o portugueses), os quais desenvolveram projectos art\u00edsticos em liga\u00e7\u00e3o com as comunidades locais. Mem\u00f3ria colectiva, lendas e mitos, identidade, g\u00e9nero e idade, topografia, topon\u00edmia, m\u00fasica, patrim\u00f3nio sonoro, paisagem, vegeta\u00e7\u00e3o, \u00e1gua e fogo, din\u00e2micas de consumo, artefactos e utens\u00edlios, vida e morte, l\u00edngua, agricultura e pastor\u00edcia, foram alguns das realidades que serviram de base para a concep\u00e7\u00e3o e realiza\u00e7\u00e3o dos projectos art\u00edsticos. Concertos, workshops, exposi\u00e7\u00f5es, palestras e projec\u00e7\u00f5es de v\u00eddeo realizaram-se em diversas aldeias da regi\u00e3o com interesse e participa\u00e7\u00e3o crescentes.<\/p>\n<h2>#3<\/h2>\n<p>Desde que o Laf\u00f5es Rural Art Lab iniciou a sua atividade, pensamos ser patente um acr\u00e9scimo da auto-estima colectiva e individual em algumas comunidades da regi\u00e3o, pelo facto de os habitantes verem retratados o seu quotidiano, as suas mem\u00f3rias, opini\u00f5es e viv\u00eancias, pelo facto de serem ouvidos, fotografados, filmados e, finalmente, representados nos trabalhos apresentados pelos artistas. \u00c9 nossa convic\u00e7\u00e3o que, ao acompanharem os trabalhos art\u00edsticos desenvolvidos, as pessoas (tenham a instru\u00e7\u00e3o e a idade que tiverem) intuem os rudimentos dos processos de transforma\u00e7\u00e3o sens\u00edvel da realidade em arte e reconhecem essa realidade como sua, o que reduz de sobremaneira o hiato entre a cria\u00e7\u00e3o e a recep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>#4<\/h2>\n<p>\u00c9 t\u00e3o paradoxal quanto ir\u00f3nico como gente rural recebe de forma interessada obras que, na sua maioria, podem ser caracterizadas como experimentais. As mesmas obras que nas grandes cidades poderiam ser encaradas como curiosidade ou de forma indiferente, dado o n\u00famero de manifesta\u00e7\u00f5es culturais a decorrer em simult\u00e2neo, num tempo em que existe a impress\u00e3o de que j\u00e1 se viu e ouviu tudo.<\/p>\n<h2>#5<\/h2>\n<p>Pensamos as resid\u00eancias art\u00edsticas enquanto uma troca. O que \u00e9 que o artista e o habitante local d\u00e3o e esperam em troca? Ser\u00e1 que a rela\u00e7\u00e3o estabelecida entre eles n\u00e3o est\u00e1 enviesada, pois para o artista \u00e9 (em princ\u00edpio) perfeitamente claro o que \u00e9 que ele(a) necessita das pessoas, mas para estas o mesmo n\u00e3o acontece necessariamente? O artista n\u00e3o ter\u00e1, pois, uma supremacia sobre o habitante local? Pensar esta problem\u00e1tica \u00e9 para n\u00f3s crucial. Este \u00e9 um exerc\u00edcio que necessita ser aprofundado ao longo do tempo.<\/p>\n<h2>#6<\/h2>\n<p>O trabalho desenvolvido na nossa regi\u00e3o rural (um processo concomitante de cria\u00e7\u00e3o, documenta\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o) exige disponibilidade e tempo e \u00e9 deliberadamente invis\u00edvel (ou de visibilidade limitada). N\u00e3o sendo um objectivo em si, \u00e9 uma forma de actuar da forma mais livre poss\u00edvel, por processos de contacto individual (quer no que respeita aos artistas, \u00e0 critica e aos p\u00fablicos) e com paci\u00eancia suficiente para se n\u00e3o esperar grandes transforma\u00e7\u00f5es imediatas. Ou seja, com a mesma paci\u00eancia do agricultor face aos ciclos de cultivo e \u00e0s esta\u00e7\u00f5es do ano.<\/p>\n<h1><\/h1>\n<h1>Ep\u00edlogo em forma de poema-manifesto<\/h1>\n<p>Agora que muita da arte contempor\u00e2nea<br \/>\nparece perder a centelha das emo\u00e7\u00f5es verdadeiras,<br \/>\nenredada em mecanismos de auto-contempla\u00e7\u00e3o<br \/>\ne de auto-justifica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nArtistas e comentadores num s\u00f3 corpo,<br \/>\npotenciados por um fasc\u00ednio tecn\u00f3filo.<\/p>\n<p>Temos de nos p\u00f4r a caminho.<br \/>\nProcurar no outro lado da auto-estrada,<br \/>\nnos arrabaldes do mundo,<br \/>\nos artistas que dizem:<br \/>\ncriei esta obra por absoluta necessidade.<br \/>\nPara n\u00e3o me esquecer.<br \/>\nPara me manter \u00e0 tona do p\u00e2ntano.<br \/>\nComo homenagem ao meu semelhante que luta,<br \/>\nao sol que nos aquece,<br \/>\nao sistema de rega que nos alimenta,<br \/>\nao vinho que nos anima.<\/p>\n<p>Abaixo os laborat\u00f3rios de artistas higi\u00e9nicos.<br \/>\nAbaixo as mentes brilhantes enredadas nos seus algoritmos.<br \/>\nArte n\u00e3o \u00e9 ci\u00eancia.<br \/>\nViva a poeira da estrada.<\/p>\n<p>Queremos bra\u00e7os actuantes.<br \/>\nO meu medium \u00e9 uma enxada,<br \/>\nprecisa de m\u00fasculo e de suor para funcionar.<br \/>\nSaudemos a virtude das coisas necess\u00e1rias.<br \/>\nPara n\u00e3o me esquecer.<br \/>\nPara me manter \u00e0 tona do p\u00e2ntano.<br \/>\nComo homenagem ao meu semelhante que luta,<br \/>\nao sol que nos aquece,<br \/>\nao sistema de rega que nos alimenta,<br \/>\nao vinho que nos anima.<\/p>\n<p>Abaixo os laborat\u00f3rios de artistas higi\u00e9nicos.<br \/>\nAbaixo as mentes brilhantes enredadas nos seus algoritmos.<br \/>\nArte n\u00e3o \u00e9 ci\u00eancia.<br \/>\nViva a poeira da estrada.<\/p>\n<p>Queremos bra\u00e7os actuantes.<br \/>\nO meu medium \u00e9 uma enxada,<br \/>\nprecisa de m\u00fasculo e de suor para funcionar.<br \/>\nSaudemos a virtude das coisas necess\u00e1rias.<\/p>\n<\/div><div class=\"fusion-clearfix\"><\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":1,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"_acf_changed":false,"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"footnotes":""},"class_list":["post-61","page","type-page","status-publish","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.binauralmedia.org\/news\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/61","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.binauralmedia.org\/news\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.binauralmedia.org\/news\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.binauralmedia.org\/news\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.binauralmedia.org\/news\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=61"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.binauralmedia.org\/news\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/61\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12570,"href":"https:\/\/www.binauralmedia.org\/news\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/61\/revisions\/12570"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.binauralmedia.org\/news\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=61"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}