{"id":21593,"date":"2024-07-28T17:20:36","date_gmt":"2024-07-28T17:20:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.binauralmedia.org\/news?post_type=avada_portfolio&#038;p=21593"},"modified":"2024-07-28T17:24:49","modified_gmt":"2024-07-28T17:24:49","slug":"luis-costa-o-som-gordio-valores-e-complexidades-da-escuta-local","status":"publish","type":"avada_portfolio","link":"https:\/\/www.binauralmedia.org\/news\/arquivo\/portfolio-items\/luis-costa-o-som-gordio-valores-e-complexidades-da-escuta-local","title":{"rendered":"Lu\u00eds Costa: O som g\u00f3rdio. Valores e complexidades da escuta local"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1144px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:0px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><p style=\"text-align: center;\"><strong>O som g\u00f3rdio: Valores e complexidades da escuta local <a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Lu\u00eds Costa<br \/>\n(Coordenador da Binaural Nodar, Viseu D\u00e3o Laf\u00f5es, PT)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">www.binauralmedia.org<\/p>\n<ol>\n<li><strong> Sou de onde estou a ouvir<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Nodar, S\u00e3o Pedro do Sul, Portugal. Maio de 1968. O in\u00edcio de uma vida contingente e an\u00f3nima como qualquer outra, num lugar que sempre conheci. Nasci de pessoas que conheciam intimamente esse s\u00edtio e cresci a conhec\u00ea-lo e a ouvir falar dele. Regressei fisicamente a ele h\u00e1 dez anos, o que n\u00e3o quer dizer que tenha deixado de o conhecer quando n\u00e3o l\u00e1 vivi. Passei todos estes anos a admirar os agricultores do meu lugar, pelo seu trabalho \u00e1rduo, pelo seu amor \u00e0 terra, pela precis\u00e3o dos seus ritmos c\u00edclicos, pela sua cren\u00e7a em valores t\u00e3o simples quanto antigos, pela sua independ\u00eancia, liberdade de pensamento e de express\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a todos os poderes: os duros e os brandos, os pol\u00edticos e os morais.<\/p>\n<p>Em 1975, um ano ap\u00f3s a <em>Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos <\/em>em Portugal, eu tinha sete anos. As crian\u00e7as da aldeia de Nodar (ainda) passavam todo o seu tempo livre fora de casa, investigando lugares ins\u00f3litos, construindo objetos estranhos e falando com os velhos locais. Um desses velhos era o Augusto, que era solteiro, sapateiro e vivia sozinho num palheiro\/oficina onde n\u00e3o havia \u00e1gua nem eletricidade (a \u00e1gua da rede e a eletricidade s\u00f3 chegariam \u00e0 aldeia em 1980, verdadeiros artefactos do primeiro mundo). Augusto tinha um pequeno bigode que me fazia lembrar um certo Adolfo do livro de hist\u00f3ria; era uma pessoa visceral, amante das bebidas alco\u00f3licas, tendo cada vez menos trabalho ao longo dos anos, por ser pregui\u00e7oso e pouco perfeccionista.<\/p>\n<p>Um dia, eu e uns amigos subimos as escadas que davam acesso ao palheiro\/oficina do Augusto e registei na mem\u00f3ria um postal visual e sonoro de um tempo que j\u00e1 n\u00e3o existe: Augusto caminhava lentamente na escurid\u00e3o do palheiro, com os seus tamancos a fazer<em> clac clac <\/em>no velho ch\u00e3o de madeira, enquanto praguejava, assobiava e cantava sob o efeito do \u00e1lcool que consumia diariamente. Ouvia-se o seu sotaque carregado de algu\u00e9m que nunca tinha ido \u00e0 escola e nunca saiu da regi\u00e3o. De repente, parou e virou-se para as crian\u00e7as que estavam \u00e0 porta a rir-se de t\u00e3o estranha personagem (\u00e9 caracter\u00edstico de todas as aldeias terem a sua pr\u00f3pria personagem) e, com o maior dos sorrisos, disse-nos: &#8220;De que se est\u00e3o a rir, seus malandros?\u201d Nesse momento apercebi-me e senti que existe uma estranha cumplicidade entre o louco e a crian\u00e7a, porque ao contr\u00e1rio dos &#8220;adultos normais&#8221;, ambos existem para quebrar as regras, para caminhar no fio de Ariadne entre o racional e o irracional, para explorar os limites da liberdade de express\u00e3o e de a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estas mem\u00f3rias fixaram-se em mim de uma forma muito particular. Esta \u00faltima, penso que se deveu ao facto de, mais tarde, ter entendido a realidade como complexa, densa e repleta de situa\u00e7\u00f5es, pessoas e espa\u00e7os que se desviam das conven\u00e7\u00f5es associadas \u00e0 normalidade; normalidade essa que \u00e9 moldada ou influenciada no decurso da vida e das escolhas individuais, o que \u00e9 quase sempre uma esp\u00e9cie de receita para uma sociedade menos aut\u00eantica, mais autorit\u00e1ria e mais superficial. Ainda hoje, Augusto seria um exemplo paradigm\u00e1tico daquilo a que muitos chamam politicamente incorreto, tal era a sua concentra\u00e7\u00e3o de &#8220;estranhezas&#8221; (o \u00e1lcool, a sua linguagem, o seu estatuto de quase eremita). No entanto, para mim, ele foi e ser\u00e1 sempre uma pessoa v\u00e1lida (para n\u00e3o dizer amada), pela coragem (desesperada) de n\u00e3o seguir os estreitos c\u00e2nones sociais de uma aldeia rural remota e conservadora.<\/p>\n<p>E o que \u00e9 que esta hist\u00f3ria tem a ver com a pr\u00e1tica sonora, para al\u00e9m do <em>clac clac <\/em>dos tamancos no ch\u00e3o de madeira?<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> Ah, meus amigos, esta hist\u00f3ria condensa o que significa realmente a escuta local, a partir do interior, a partir das dobras de um corpo quase em estado selvagem, longe de todas as pol\u00edticas de escuta e de toda a prote\u00e7\u00e3o ass\u00e9ptica do patrim\u00f3nio sonoro.<\/p>\n<p>Em termos de patrim\u00f3nio sonoro, e como resultado da ideia de redescoberta do Portugal profundo ap\u00f3s a <em>Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos <\/em>de 1974, foi dada muita aten\u00e7\u00e3o \u00e0s zonas rurais, quase sempre na perspetiva de captar algo pr\u00f3ximo da &#8220;alma do povo&#8221;<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, \u00fatil (presumo) para criar um sentido coletivo de poder popular a partir da consci\u00eancia das desigualdades hist\u00f3ricas entre trabalhadores explorados e propriet\u00e1rios agr\u00edcolas. \u00c9 claro que isso estava longe de ser verdade em muitas regi\u00f5es rurais portuguesas. Esta narrativa exprimiu-se, por exemplo, na redescoberta de cancioneiros rurais, reinterpretados por jovens m\u00fasicos das cidades, fascinados pelos estudos etnomusicol\u00f3gicos efetuados nesses anos pelo corso Michel Giacometti para a televis\u00e3o p\u00fablica portuguesa. Este processo evoluiu ao longo dos anos para a consci\u00eancia patrimonial dos pr\u00f3prios territ\u00f3rios e, atualmente, n\u00e3o h\u00e1 munic\u00edpio que n\u00e3o seja capital de alguma coisa: paisagem, gastronomia, m\u00fasica, etc., pelo que a cereja no topo do bolo, muito em voga hoje em dia, s\u00e3o as candidaturas locais a patrim\u00f3nio imaterial da UNESCO, para g\u00e1udio dos operadores tur\u00edsticos, dos pol\u00edticos regionais e nacionais e dos meios de comunica\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Todo este contexto pode ser muito bondoso, mas creio que estes processos de &#8220;hiper-representa\u00e7\u00e3o&#8221; do mundo rural s\u00f3 servem para diminuir o sentido de densidade, complexidade e liberdade dos pr\u00f3prios espa\u00e7os rurais. Est\u00e3o a reduzir a evolu\u00e7\u00e3o cultural milenar a meros <em>slogans<\/em>, e o car\u00e1cter profundamente libert\u00e1rio e individualista \u00e9 visto de forma suspeita por todo o poder exercido sobre as pr\u00f3prias popula\u00e7\u00f5es (Bloch, 1930). H\u00e1, portanto, um enorme espa\u00e7o entre o real e a sua representa\u00e7\u00e3o que deve ser explorado criticamente. Esta \u00e9 tamb\u00e9m a utilidade de uma investiga\u00e7\u00e3o s\u00f3lida derivada de novas escutas locais.<\/p>\n<p>Tendo em conta estas tens\u00f5es atuais entre uma modernidade progressista e hiper-representada e um localismo h\u00edbrido, feito de arca\u00edsmos, contradi\u00e7\u00f5es e transforma\u00e7\u00f5es (Gim\u00e9nez, 1994), optamos por este \u00faltimo, dizendo de forma algo provocat\u00f3ria: n\u00e3o somos progressistas, somos ouvintes dos restos de um passado rural. Somos colecionadores do quotidiano, das idiossincrasias e de improvisa\u00e7\u00f5es de pessoas e lugares particulares. Somos&#8230; conservadores, anti-futuristas, anti-patrimonialistas, anti-ut\u00f3picos, anti-dist\u00f3picos, <em>ultra-oidistas<\/em>, e quase sempre &#8220;pacient\u00f3manos&#8221;.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong> O ouvinte <em>a meio caminho<\/em><\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Mar\u00e7o de 2006. Regresso \u00e0 nossa aldeia de Nodar, depois de tr\u00eas d\u00e9cadas de emigra\u00e7\u00e3o na cidade de Lisboa. As primeiras perce\u00e7\u00f5es foram obtidas atrav\u00e9s dos sons. A primeira foi uma batida \u00e0 porta numa manh\u00e3 de nevoeiro. Artes\u00e3os sonoros<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> come\u00e7aram a entrar no nosso territ\u00f3rio rural, com cortesia, aceita\u00e7\u00e3o, curiosidade e servi\u00e7o; estas foram as ferramentas do nosso trabalho. N\u00e3o apenas o som.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>O som poder\u00e1 ter sido um ponto de viragem ou uma dobra<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> no dicion\u00e1rio das certezas est\u00e1veis, pois \u00e9 um tipo de linguagem \u00edntima, subtil, espec\u00edfica e contingente. Mas h\u00e1 muitos outros tipos de linguagem para uma abordagem a um territ\u00f3rio, e n\u00f3s gostamos daqueles que proporcionam uma comunica\u00e7\u00e3o sincera e emp\u00e1tica com as popula\u00e7\u00f5es locais. E para isso, o som n\u00e3o \u00e9 suficiente. \u00c9 por isso que n\u00e3o queremos ser engolidos pela nova vaga de investigadores sonoros &#8220;inteligentes&#8221;, t\u00e3o espertos quanto ass\u00e9pticos. Desconfiamos, por exemplo, dos mapas sonoros globalizados, em que cada som \u00e9 arrancado do seu contexto como uma crian\u00e7a \u00e9 arrancada dos bra\u00e7os da m\u00e3e.<\/p>\n<p>Continuamos a escavar significados&#8230; significados antigos e esquecidos do nosso lugar. Seremos mineiros sonoros, agricultores sonoros, carpinteiros sonoros, marionetistas sonoras; enraizados num canto esquecido do mundo.<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a><\/p>\n<p>E nestes dez anos de acolhimento de artistas sonoros no nosso territ\u00f3rio rural, compreendemos ainda mais claramente que cada ouvinte \u00e9 um ser <em>a meio caminho<\/em>, um mediador, um conetor, por vezes um ser infeliz por n\u00e3o pertencer a 100% ao que ouve, por vezes feliz por viver muitas vidas atrav\u00e9s do que ouve.<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a><\/p>\n<p>O real ouvido e gravado \u00e9 assim um sistema complexo feito de decis\u00f5es, responsabilidades e moralidades fundamentalmente individuais, por mais que se queira compactar essas individualidades numa consci\u00eancia coletiva. Por isso, o ouvinte escuta mais livremente, escapando a teleologias positivas (utopias) ou negativas (distopias), umas provenientes da engenharia social ou da inova\u00e7\u00e3o t\u00e3o em voga (e t\u00e3o arriscadas ou mesmo perigosas), outras provenientes de um pessimismo sem remiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Entendemos, portanto, a escuta como um mecanismo subtil de revela\u00e7\u00e3o e desvelamento; contingente, inst\u00e1vel, pass\u00edvel de erro e derivado de mecanismos de perce\u00e7\u00e3o fundamentalmente individuais.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica sonora n\u00e3o deve ser uma atividade pass\u00edvel de mistifica\u00e7\u00e3o (som pelo som, o som sem contexto ou mesmo o som idealizado) (Brynjar, 2012). Ou seja, o som pode e deve ser articulado serenamente com outros saberes, sentimentos, escutas e &#8211; porque n\u00e3o &#8211; olhares; por outras palavras, tudo depende da aten\u00e7\u00e3o que \u00e9 necess\u00e1rio conferir a cada aspeto do real.<\/p>\n<p>Nestes tempos acelerados, ultravisuais e ruidosos, o sil\u00eancio, a const\u00e2ncia e a humildade perante o real, o ouvido, o pensado, o sentido e o vivido s\u00e3o, por isso, atos necess\u00e1rios, radicais e contracorrentes.<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong> Um xadrez de possibilidades, entre o local (brancas) e o som (negras).<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>No que diz respeito \u00e0 nossa condi\u00e7\u00e3o de animais em permanente d\u00favida, colocamo-nos diariamente as seguintes quest\u00f5es\/ang\u00fastias na nossa pr\u00e1tica de curadoria sonora:<\/p>\n<ul>\n<li>Qual \u00e9 a necessidade de pensar, documentar e expressar criativamente localidades espec\u00edficas e perif\u00e9ricas (como as rurais) de forma a fazer emergeir valores relevantes, escapando aos clich\u00e9s da sobre-representa\u00e7\u00e3o end\u00f3gena ou do sobre-idealismo ex\u00f3geno?<\/li>\n<li>Quais s\u00e3o as caracter\u00edsticas intr\u00ednsecas do som no processo de pensamento e de express\u00e3o em contextos locais que possam ir al\u00e9m das tautologias auto-justificativas dos pr\u00f3prios profissionais ou acad\u00e9micos do som?<\/li>\n<\/ul>\n<p>Claro que gostamos de baixar as expectativas sobre a ambi\u00e7\u00e3o de ambas as quest\u00f5es atrav\u00e9s de um processo radical de &#8220;contexto e conting\u00eancia&#8221;, um que coloca todas as vari\u00e1veis em jogo (o artista, o som, o projeto, a pr\u00e1tica, o local, a comunidade, a expetativa, a media\u00e7\u00e3o, etc.) num prisma de extrema incerteza e fragilidade. Por outras palavras, esperamos que o encontro entre o ouvinte\/artista e o local seja o menos r\u00edgido e previs\u00edvel poss\u00edvel, precisamente porque um dos contravalores dos contextos locais \u00e9 (ainda) o afastamento das certezas e otimismos progressistas e globais. Trazemos, por isso, o Augusto, com os seus tamancos e o seu h\u00e1lito alco\u00f3lico, juntamente com convidados sonoros improv\u00e1veis, muitos dos quais j\u00e1 percorreram com confian\u00e7a os corredores de imponentes templos da arte ou da ci\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 no valor potencial destes encontros improv\u00e1veis que &#8211; assim o pensamos &#8211; se pode desatar o <em>n\u00f3 g\u00f3rdio <\/em>deste conjunto de dualidades complexas que deliberadamente provocamos atrav\u00e9s da nossa pr\u00e1tica curatorial (artista\/comunidade, local\/global, perene\/ef\u00e9mero, manual\/intelectual, trabalho\/arte, racional\/irracional, compreens\u00e3o\/mal-entendido, certo\/errado, etc.).<\/p>\n<p>Ao trazermos sentidos de &#8220;contexto e conting\u00eancia&#8221; para a rela\u00e7\u00e3o entre o som e o local, pretendemos que &#8220;esse local&#8221; possa ser tamb\u00e9m uma t\u00e1bua de infinitas possibilidades de express\u00e3o num duplo sentido: num primeiro momento, pela complexidade inerente (geogr\u00e1fica, s\u00f3cio antropol\u00f3gica, hist\u00f3rica, etc.) a qualquer lugar, por mais pequeno que seja, e, num segundo momento, pelo conjunto de possibilidades criativas da pr\u00e1tica sonora em contexto local, tais como a geografia como meio para a proje\u00e7\u00e3o do som; a rela\u00e7\u00e3o com a voz antropol\u00f3gica; as improvisa\u00e7\u00f5es na paisagem; o espa\u00e7o e o som como conceitos descontextualizados; a abordagem ao sil\u00eancio ou a obras sonoras sem som; a amplifica\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o sonoro, entre outros.<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a><\/p>\n<p>Sabemos que falar e valorizar qualquer identidade local \u00e9 hoje um terreno prop\u00edcio a incompreens\u00f5es e cr\u00edticas, dada a emerg\u00eancia de novos receios e tens\u00f5es resultantes do crescente multiculturalismo, particularmente evidente na &#8220;velha Europa&#8221;. Mas estamos simultaneamente conscientes de que este problema deve ser enfrentado sem receios, pois n\u00e3o podemos deixar de constatar que n\u00e3o h\u00e1 humanidade sem a procura de uma &#8220;inscri\u00e7\u00e3o&#8221; local e a valoriza\u00e7\u00e3o (mesmo que inconsciente) de realidades persistentes (a casa, a rua, a paisagem, o vizinho, o bar, a fam\u00edlia, o clube desportivo, etc.), \u00e0s quais a pr\u00e1tica sonora n\u00e3o pode escapar. Uma situa\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria seria a de uma grande arrog\u00e2ncia (Davoudi &amp; Madanipour, 2015).<\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li><strong> Escuta necess\u00e1ria<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Sob a forma de ep\u00edlogo, deixamos um breve manifesto de raz\u00f5es para algumas escutas, derivado do caderno das nossas ansiosas investiga\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>Ouvir a necessidade, ouvir o que \u00e9 necess\u00e1rio.<br \/>\nOuvir de fora do sistema, portanto, ouvir mais claramente.<br \/>\nEscutar, n\u00e3o pensar no poder e na acumula\u00e7\u00e3o&#8230; Pelo contr\u00e1rio, pensar, em construir espa\u00e7os de compreens\u00e3o a partir do car\u00e1cter dos nossos lugares.<br \/>\nEscuta desde a terra ch\u00e3, como forma de liberta\u00e7\u00e3o de ideias pr\u00e9-fabricadas.<br \/>\nEscutar com temperan\u00e7a, humildade, d\u00favida e perman\u00eancia.<br \/>\nOuvir mais com beleza e menos com efici\u00eancia.<br \/>\nOuvir mais as impress\u00f5es e as sensa\u00e7\u00f5es e menos as &#8220;ideias puras&#8221;.<br \/>\nOuvir mais as coisas da vida e menos a pr\u00f3pria escuta.<br \/>\nOuvir o que \u00e9 aut\u00eantico, verdadeiro e sensato, venha de onde vier.<br \/>\nOuvir mais as diferentes manifesta\u00e7\u00f5es de um lugar e menos uma manifesta\u00e7\u00e3o de muitos lugares.<br \/>\nOuvir mais o pequeno, o antigo e o particular e menos o global, o novo e o abstrato.<br \/>\nEscutar o processo inevit\u00e1vel em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 morte e, portanto, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 continua\u00e7\u00e3o de muitos dos nossos semelhantes e dos nossos lugares queridos.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Bibliografia<\/strong><\/p>\n<p>Bloch, M. (1930). La lutte pour l&#8217;individualisme agraire dans la France du XVIIIe <em>si\u00e8cle. <\/em>Em M. Bloch &amp; L. Febvre (Ed.), <em>Annales d&#8217;histoire \u00e9conomique et sociale <\/em>(pp. 321-640). Paris: Armand Colin.<\/p>\n<p>Brynjar. D. (2012). Sobre o som e o contexto, Schloss Solitude. Nova Iorque. Consultado em: <a href=\"http:\/\/franzson.com\/on%20Sound%20and%20Context.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/franzson.com\/on%20Sound%20and%20Context.pdf<\/a><\/p>\n<p>Costa, L., &amp; Costa, R. (2010). <em>Tr\u00eas Anos em Nodar: Pr\u00e1ticas Art\u00edsticas em Contexto Espec\u00edfico no Portugal Rural. <\/em>Portugal: Edi\u00e7\u00f5es Nodar.<\/p>\n<p>Davoudi, S. &amp; Madanipour, A. (2015). <em>Reconsidering Localism. <\/em>Londres: Routledge.<\/p>\n<p>De Maupassant, G. (1884). <em>Le vieux<\/em>, in <em>Contes du jour et de la nuit, <\/em>[vers\u00e3o pdf]. Consultado em: <a href=\"http:\/\/www.quandletigrelit.fr\/images\/Guy-de-Maupassant-Les-Contes-du-jour-et-de-la-nuit-Le-vieux.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.quandletigrelit.fr\/images\/Guy-de-Maupassant-Les-Contes-du-jour-et-de-la-nuit-Le-vieux.pdf<\/a><\/p>\n<p>Gim\u00e9nez, C. (1994), El caleidoscopio cultural europeo: entre el localismo y la globalidad. <em>Documentaci\u00f3n Social, 97<\/em>, 9-34. Consultado em: <a href=\"http:\/\/www.caritas.es\/imagesrepository\/CapitulosPublicaciones\/636\/02%20-%20EL%20CALEIDOSCOPIO%20CULTURAL%20EUROPEO%20ENTRE%20EL%20LOCALISMO%20Y%20LA%20GLOBALIDAD.PDF\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.caritas.es\/imagesrepository\/CapitulosPublicaciones\/636\/02%20-%20EL%20CALEIDOSCOPIO%20CULTURAL%20EUROPEO%20ENTRE%20EL%20LOCALISMO%20Y%20LA%20GLOBALIDAD.PDF<\/a><\/p>\n<p>Stoller, P. (2009). <em>The Power of the Between: An Anthropological Odyssey [O Poder do Entre: Uma Odisseia Antropol\u00f3gica]<\/em>. Chicago: University of Chicago Press.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Publicado originalmente para a Aural, revista chilena de arte sonora, ano de 2017.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> H\u00e1 toda uma linha de associa\u00e7\u00e3o entre o mundo rural e os tamancos, como s\u00edmbolo (at\u00e9 sonoro) de pobreza e rudeza na pintura realista e p\u00f3s-impressionista do s\u00e9culo XIX (Julien Dupr\u00e9, Vincent Van Gogh, Jean Fran\u00e7ois Millet, etc.) e na literatura. A t\u00edtulo de exemplo, recordo uma passagem do belo texto <em>Le Vieux<\/em>, de Guy de Maupassant: &#8220;A barreira arborizada abriu-se; entrou um homem, talvez com quarenta anos, mas que parecia ter sessenta, montado, retorcido, caminhando com passos largos e lentos, sobrecarregado pelo peso de sacos de tecido completamente cheios&#8221;. De Maupassant, G. (1884). <em>Le vieux<\/em>, in <em>Contes du jour et de la nuit, <\/em>[vers\u00e3o pdf]. Consultado em: <a href=\"http:\/\/www.quandletigrelit.fr\/images\/Guy-de-Maupassant-Les-Contes-du-jour-et-de-la-nuit-Le-vieux.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.quandletigrelit.fr\/images\/Guy-de-Maupassant-Les-Contes-du-jour-et-de-la-nuit-Le-vieux.pdf<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> A este respeito, as campanhas de dinamiza\u00e7\u00e3o cultural e de a\u00e7\u00e3o c\u00edvica desenvolvidas em todo o pa\u00eds rural pelas for\u00e7as armadas nos anos do chamado Per\u00edodo Revolucion\u00e1rio em Curso (PREC), entre 1974 e 1976, permanecem nos anais dos grandes equ\u00edvocos hist\u00f3ricos portugueses. Vd. Almeida, S\u00f3nia Vespeira de, 2009, Camponeses, Cultura e Revolu\u00e7\u00e3o: Campanhas de Dinamiza\u00e7\u00e3o Cultural e A\u00e7\u00e3o C\u00edvica do MFA (1974-1975), IELT-Colibri, Lisboa (pref\u00e1cio de Jo\u00e3o Leal e posf\u00e1cio de Vasco Louren\u00e7o).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Neologismo derivado de &#8220;paci\u00eancia&#8221;.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Estes s\u00e3o os artistas sonoros que come\u00e7aram a chegar ao nosso territ\u00f3rio a partir de 2006. Chamo-lhes artes\u00e3os sonoro por analogia com o trabalho artesanal rural, mas tamb\u00e9m pela prefer\u00eancia que damos \u00e0s intera\u00e7\u00f5es materiais e manuais. Ou seja, n\u00e3o gostamos de imaterializar\/mentalizar demasiado a pesquisa sonora, por isso tentamos promover a redescoberta de tangibilidades antigas, do andar, do bater, do pegar, do suar.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Os primeiros anos de trabalho sonoro regular da Binaural &#8211; Associa\u00e7\u00e3o Cultural de Nodar na aldeia de Nodar e em aldeias vizinhas foram amplamente documentados no cat\u00e1logo retrospetivo: Costa, L. &amp; Costa, R. (2010). <em>Tr\u00eas Anos em Nodar: Pr\u00e1ticas Art\u00edsticas em Contexto Espec\u00edfico no Portugal Rural. <\/em>Portugal: Edi\u00e7\u00f5es Nodar.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> <em>Dobra<\/em> num sentido deleuziano.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Aqui estamos a tentar <em>desesperadamente<\/em> resgatar um sentido perdido de artesanato nas artes sonoras, fazendo uma associa\u00e7\u00e3o livre entre a enxada do agricultor ou a picareta do mineiro e o microfone e a perche do artista sonoro.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> O conceito do etn\u00f3grafo (que inclui o ouvinte de qualquer contexto geo-social) como estando entre contextos, ou <em>in-between<\/em>, foi abordado em pormenor na primeira pessoa por Stoller, P. (2009). <em>The Power of the Between: An Anthropological Odyssey [O Poder do Entre: Uma Odisseia Antropol\u00f3gica]<\/em>. Chicago: University of Chicago Press.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Em &#8220;Tr\u00eas Anos em Nodar: Pr\u00e1ticas Art\u00edsticas em Contexto Espec\u00edfico no Portugal Rural&#8221; desenvolvemos uma matriz emp\u00edrica das possibilidades sonoras que identific\u00e1mos em conjunto com os muitos artistas sonoros que acolhemos na nossa regi\u00e3o desde 2006: Costa, L., &amp; Costa, R. (2010).<\/p>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":2,"featured_media":21594,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"footnotes":""},"portfolio_category":[1328],"portfolio_skills":[],"portfolio_tags":[],"class_list":["post-21593","avada_portfolio","type-avada_portfolio","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","portfolio_category-artigos-de-investigacao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.binauralmedia.org\/news\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/21593","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.binauralmedia.org\/news\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.binauralmedia.org\/news\/wp-json\/wp\/v2\/types\/avada_portfolio"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.binauralmedia.org\/news\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.binauralmedia.org\/news\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21593"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.binauralmedia.org\/news\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/21593\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21598,"href":"https:\/\/www.binauralmedia.org\/news\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/21593\/revisions\/21598"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.binauralmedia.org\/news\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21594"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.binauralmedia.org\/news\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21593"}],"wp:term":[{"taxonomy":"portfolio_category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.binauralmedia.org\/news\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_category?post=21593"},{"taxonomy":"portfolio_skills","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.binauralmedia.org\/news\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_skills?post=21593"},{"taxonomy":"portfolio_tags","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.binauralmedia.org\/news\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_tags?post=21593"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}