Julian Weaver

Entrevista
com Julian Weaver

R E S P I R E R

A instalação “Respirer“, de Julian Weaver, utiliza a prática médica da auscultação (a prática de ouvir os sons provenientes do interior dos órgãos) para jogar com as expectativas do público ao submeter um dispositivo clínico a um contexto artístico. Ao recorrer-se a uma enfermeira para registar detalhes clínicos e realizar um exame, a situação provoca a sensação estranha e desconcertante de que, embora estejamos num ambiente artístico, o mundo médico e as suas regras prevalecem. Então, logo que o exame está terminado, espera-se que haja um diagnóstico para confirmar que estamos saudáveis. O desapontamento causado por não recebermos nenhuma confirmação do nosso estado de saúde é um dos aspectos mais poderosos desta peça. Quando o exame termina, é-se convidado a sair do espaço fechado da instalação e dirigir-se ao espaço da galeria. Weaver explica que ele está tanto interessado em recolher sons dos pulmões como em observar os participantes a suspender a sua crítica estética “em favor de uma análise física [que] sugere um investimento na beneficência da instituição médica como um todo. Uma visão não inteiramente em consonância com a visão sociopolítica do serviço de saúde. Este abismo entre a crença na profissão médica e a sua institucionalização é realçada por uma diferenciação entre o político e o clínico; algo que proporciona ao clínico uma liberdade de que o político não beneficia.

De certa forma, Respirer reflecte sobre a própria invenção do Estetoscópio. Um jovem médico Francês chamado Laennec estava a examinar um paciente em 1816. Aparentemente o médico estava embaraçado em colocar o seu ouvido sobre o peito de pacientes femininos e também algo repugnado com os enfermos da epidemia de tuberculose, a qual ele foi contratado para tratar. Num repente de inspiração ele lembrou-se que “conseguimos ouvir o roçar de um alfinete numa extremidade de um pedaço de madeira se encostarmos o ouvido à outra extremidade”. Construindo um cone de papel ele encostou a sua extremidade maior ao peito dos pacientes e a outra ao seu ouvido. Ele não ficou “nem um pouco surpreendido e agradado ao descobrir que eu poderia dessa forma sentir o funcionamento do coração de uma forma muito mais clara e distinta do que eu alguma vez fui capaz com a utilização directa do ouvido.” Alguma coisa deste momento permanece em Respirer, a repulsa e a inibição do paciente; a separação da obra de arte em relação à experiência de participar nela; o repositório para recolher sons sem diagnóstico. E, claro, os problemas do diagnóstico propriamente dito. Weaver informa-me que, apesar de ele não o desejar, seria ilegal, até para um praticante de medicina, diagnosticar pacientes numa galeria de arte.

É verdade que os sons pulmonares são muito evocativos e repletos do interior escondido do corpo. Espaços usualmente demasiado íntimos até para nos examinarmos a nós próprios. Mas eles são também algo limitados e difíceis de definir. Weaver afirma que “Tal como outros mecanismos (o carro, o disco, a torneira, etc), quando em bom estado, os pulmões produzem apenas um ‘sussurro’ repetitivo. No entanto, quando estão afectados existem alguns sons adicionais que podem ser identificados. Estes variam, patologicamente falando, da ‘pieira’ de uma normal constipação, devida à consolidação temporária da cavidade pulmonar, ou do ‘estalar’ dos alvéolos associada à asma até ao borbulhar terminal do ‘último estertor’, à medida que os pulmões se enchem lentamente de fluido.” Weaver examina problemas que são correntes até na prática médica contemporânea onde, cera nos ouvidos dos médicos ou outros factores tornam a auscultação numa prática questionável em termos de localizar uma doença. O que encontramos aqui é uma leitura inteligente dos efeitos do método de negação da arte moderna combinada com um questionamento crítico da aceitação da sabedoria da instituição médica.


Mark Maclaren (MM): Podes explicar a versão de Respirer que eu vi em Tallin no âmbito do festival Isea2004.

Julian Weaver (JW): A versão da instalação Respirer no Isea é uma clínica de gravação de pulmões, na qual você preenche um formulário e recebe um exame por uma enfermeira. O som é encaminhado para um altifalante de forma a que as pessoas no exterior possam ver o exame que está a decorrer e escutar os sons pulmonares que saem do estetoscópio.


MM: Que tipo de reacções encontraste por parte das pessoas que participaram, considerando a estrutura clínica da peça?

JW: Bem, parece que as pessoas estão prontamente disponíveis para se submeterem a exames sem se quer colocarem qualquer questão sobre, por exemplo, a validade da enfermeira que está a efectuar o exame. E muito frequentemente parecem esquecer-se que se trata de uma peça artística e ficam muito mais interessados na sua própria saúde, o que é realmente estranho.


MM: A instalação aparece usar métodos de decepção. Em primeiro lugar, o facto de que as pessoas não recebem um diagnóstico e em segundo lugar o facto de que a pessoa que está a ser examinada não consegue sequer ouvir os seus próprios sons pulmonares. Isto é um aspecto intencional da peça?

JW: Bem, tudo começou ao pensarmos até que ponto uma pessoa treinada para auscultar consegue realmente sequer ouvir algum som. Existe um abismo enorme entre a quantidade de som que se perde no percurso entre o ponto original no pulmão e o estetoscópio. E muito frequentemente há muito ruído do exterior devido a um incorrecto manuseamento do estetoscópio e a outros tipos de atributos como o grau de limpeza dos ouvidos do médico. Portanto há até a possibilidade de ausência de som proveniente dos pulmões. Logo existe um processo de identificação no estetoscópio onde o médico tenta discernir entre um ruído enquadrado, ou seja, um ruído que tem uma definição clínica, e outros ruídos exógenos. Voltando à questão do desdém por parte do público, tal não é devido com o impedir as pessoas de ouvir os sons, já que elas numa situação normal de uma consulta médica tampouco iriam ouvi-los. O médico não convida o paciente a escutar o som, é um procedimento clínico com o qual ele está ocupado.


MM: Tens planos para realizar algum trabalho com o repositório de sons pulmonares que foste coleccionando?

JW: O objectivo inicial de Respirer era apenas um trabalho sonoro, não era uma instalação como tal. Eram gravações que eu tinha obtido de outros sítios e que eram misturadas de forma a que não fosse possível distinguir a respiração de uma pessoa de uma outra. Voltando ao diagnóstico, o propósito era captar a demografia das pessoas que participavam na instalação, fazer como que mais pessoas entrassem para serem obtidas mais gravações pulmonares, e, portanto, a questão do diagnóstico era como que anulada, pelo colapsar das diferentes gravações ao misturarem-se todas numa só peça que representa a demografia dos visitantes da instalação. Então, para cada evento que aconteceu, foi criada uma peça, a qual é uma espécie de “cartofonia” dos visitantes, um mapa sonoro das pessoas que chegavam à galeria.


MM: Reparei que quanto mais doentes as pessoas estão, mais interessantes são os seus sons pulmonares. Este facto impele-te a trabalhar com pessoas declaradamente mais doentes para obteres sons menos insípidos?

JW: Bem, cada vez que eu refiz a instalação, foi ficando claro que tal não é totalmente assim – o som foi o interesse inicial, ou a origem do som – eu li numa revista médica americana que eles ainda discutem sobre a fonte de certos sons pulmonares, a origem dos quais ainda ninguém foi capaz de determinar, interessa-me o facto de estarem a ser produzidos sons e de ninguém ser capaz de identificar a sua fonte -… tornou-se mais sobre a ideia de que a técnica de escutar de forma clínica tem uma estrutura muito histórica e fixa, mas a qual é sobreposta em cima de uma série de quantidades desconhecidas. Eu penso agora que tem mais a ver com o explorar da relação entre a escuta médica e o ruído e como é que isso se organiza numa estrutura lógica, num sistema linguístico.


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