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Dennis Báthory-Kitsz e Stevie Balch | EUA

Projecto: Birth Song: Cross-Cultural Exploration of an Old Birth Art
Categoria: Composição Electroacústica, Fonografia, Fotografia
Período:
Abril 2007
Evento: Residência Artística

 


 


 

1. Notas sobre a residência de Dennis Báthory-Kitsz e Stevie Balch

A residência de Dennis Báthory-Kitsz e Stevie Balch, com um tema aparentemente específico, canções de maternidade, mostrou ser mais complexa do que inicialmente previsto.

A organização tinha identificado alguns pontos de partida iniciais em termos de pesquisa para o projecto:

  • Cancioneiro tradicional de Lafões compilado pela Alafum e que inclui a transcrição de 4 canções de embalar.
  • Marcação de entrevista com Isabel Silvestre, a famosa cantora e divulgadora de tradições musicais da aldeia de Manhouce.
  • Identificação de mulheres de Nodar e das aldeias vizinhas que potencialmente conhecessem canções de embalar e histórias interessantes ligadas à maternidade.

Os autores aproveitaram os primeiros dias de residência para percorrer a pé a zona envolvente a Nodar e efectuarem alguns registos sonoros e fotográficos.

Por outro lado, foi agendada no final da primeira semana de residência uma conferência no Conservatório de Música da cidade de Seia, situada a cerca de 80 km de Nodar. A conferência foi dividida em duas partes: na primeira, Dennis abordou (com sabedoria e humor) a sua carreira enquanto compositor electro-acústico, e na segunda, ele e Stevie explicaram o seu projecto “Birth Song”, quer em termos artísticos quer em termos de contexto temático.

Com uma vivência rural (Vermont, EUA) e um espírito terra-a-terra, sentia-se inicialmente que a adaptação a Nodar e às exigências do projecto seria pacífica e fácil. O facto de ambos terem aprendido algum português fazia igualmente pensar que seria possível algum nível de autonomia no contacto com a população.

Após os primeiros dias de projecto, foi possível constatar que os autores do projecto iriam depender em grande medida da equipa de organização para a concretização do trabalho de campo (entrevistas, recolha de canções, etc.) e para uma ajuda na própria concepção artística do projecto, dado o óbivio desconhecimento da realidade local.

Após o impacto inicial, algumas dificuldades começaram a emergir:

  • Uma necessidade de recolha de material o mais rápido possível;
  • Alguma desilusão (quer dos autores quer da organização) com a impossibilidade pontual de realizar algumas entrevistas na data e hora prevista e com o facto de alguns dos entrevistados não conhecerem / não se recordarem de canções de embalar;
  • Um visão programada do projecto vis a vis a vivência fluida e flexível dos habitantes da região, nomeadamente no que toca a compromissos sociais;
  • Um forte conjunto de ideias sobre o tema do projecto (nascimento e maternidade), algumas das quais não eram totalmente confirmadas em Nodar (por exemplo, a preferência que as mulheres locais parecem ter por partos em unidades hospitalares em detrimento de partos em casa);
  • A referida dependência face à organização para a localização de entrevistados.

Tendo em conta estas dificuldades, os autores do projecto começaram gradualmente a pensar em alternativas / complementos em termos temáticos, nomeadamente procurando integrar uma visão mais alargada da maternidade, incluindo o papel genérico da mulher organização familiar e comunitária (os trabalhos agrícolas, a metáfora do pão, a solidariedade feminina, a relação com o universo masculino, etc.).

Este alargamento de âmbito foi induzido em primeira instância pelo receio de não se recolher suficiente material aderente à ideia inicial do projecto. No entanto, acabou por coincidir (talvez inconscientemente) com a visão holística como as diversas realidades são encaradas na região: Por exemplo, no que diz respeito às canções, não existe uma segmentação funcional clara (canções de trabalho, canções de embalar, etc.), de tal forma que uma canção de trabalho pode servir para adormecer uma criança.

Outro aspecto relevante do projecto constituiu o facto de uma não artista (Stevie Balch) ser um dos autores, o que aconteceu pela primeira vez no centro de residências artísticas de Nodar. Este facto, acabou por ter uma influência muito positiva no decurso do trabalho e da vivência na residência:

  • na incorporação de uma visão humanista, dada a experiência profissional enquanto “comadre” de Stevie Balch;
  • da sensibilidade em estado puro, não excessivamente codificada por referências estéticas, que acabou por ser incorporada no próprio projecto;
  • de um contributo determinante nas dinâmicas da residência (na ajuda na cozinha e troca de experiências gastronómicas, na bondade e disponibilidade em relação às actividades diárias).

Estes factores fizeram atenuar a ansiedade inicial, contribuindo de forma determinante para a recepção do imprevisto, o que potenciou a concretização com sucesso do projecto.

Como seria de esperar, as sementes lançadas nos primeiros dias começaram gradualmente a dar frutos:

  • Após um primeiro registo de canções tradicionais com uma habitante local, Donzília Duarte, gerou-se a possibilidade de uma segunda sessão de gravação com a presença adicional de sua mãe, conhecedora de dezenas de canções.
  • Por outro lado, uma passagem não programada à aldeia vizinha de Sequeiros criou a oportunidade da organização de um encontro com um grupo de mulheres locais para uma sessão de gravações no centro comunitário local.
  • O encontro com Isabel Silvestre, a referida cantora emblemática da região onde se situa Nodar, finalmente foi marcado.

No final destas sessões de gravação, foram registadas e transcritas mais de 50 canções tradicionais, sendo que cerca de 10% foram canções de embalar. Em paralelo, foram tiradas centenas de fotografias, registadas várias horas de paisagens sonoras, de entrevistas com mulheres e compostas várias composições a partir dos registos sonoros efectuados.

O projecto passou a ter o desafio inverso: como organizar / filtrar / trabalhar o manancial de informação recolhida.

A visão holística referida atrás acabou por ser a solução natural. Foi então concebido um poema sonoro electro-acústico e fotográfico de cerca de 30 minutos que incorporou de forma muito feliz os vários elementos recolhidos e trabalhados ao longo da residência.

De facto, pareceu-nos interessante (e relevante) como pessoas, como Dennis e Stevie, de uma forte densidade e experiência nas suas áreas de intervenção, acabaram por produzir um trabalho absolutamente pungente, emotivo e simples, compreensível por todos quantos estiveram presentes na apresentação final do projecto.

Outro elemento relevante foi o facto de o vídeo final ser falado / escrito em português, o que constituiu um esforço importante de comunicação por parte dos autores, que contribuiu de forma decisiva para o sucesso da recepção do trabalho final pela audiência, composta maioritariamente por pessoas cuja única língua que conhecem é a portuguesa.