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Bio
e Projecto Media Textos |
Aaron Ximm |
EUA |
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1. Notas sobre a residência de Aaron Ximm A residência de Aaron Ximm foi em grande medida uma típica residência de um fonografista. No entanto, a sua abordagem de trabalho encerrou alguns elementos particulares que vale a pena analisar. Mais do que tentar perceber antecipadamente com detalhe o espaço em que iria desenvolver o seu trabalho, Aaron optou por deixar que a sua própria deambulação lhe colocasse questões, cuja resposta apenas lhe servia para confirmar ou clarificar uma percepção eventualmente já sentida. De alguma forma pode dizer-se que o processo de trabalho evoluiu de um sentido macro para um sentido micro, a partir de um mapeamento inicial que permitiu construir uma grelha, ou uma malha das principais variáveis em jogo: água; animais; presença humana, sinais e hábitos, construções, reverberações do próprio espaço, topologia, etc. Foi interessante constatar como Aaron agiu sempre de forma independente, mesmo que correndo o risco de algumas dificuldades de diálogo com os locais. A verdade é que ao longo dos dias, se sentiu um nível de comunicação que crescia de forma não forçada, como se a condição de estrangeiro fosse uma variável importante do processo, que não valia a pena ser demasiado escamoteada ou contornada. À luz de um trabalho eminentemente solitário, com horários definidos e ajustados tendo em conta a maximização das possibilidades de registos sonoros interessantes, sentiu-se, especialmente nos primeiros dias, um hiato face à sua presença dentro da residência, como se tentasse não ser contaminado por uma dinâmica social que pudesse fazer perder o foco. Foi à medida que começou a criar um primeiro esboço, provavelmente a obter as primeiras respostas e a estruturar o formato de intervenção, que se sentiu uma distensão social, uma maior permeabilidade, possível tendo em conta a solidez das estacas que ia montando. A sua abordagem à tecnologia foi também muito particular: dotado de um conjunto de soluções de captação sonora com características distintas, jogou com elas de forma serena, adequando cada uma em função dos contextos, não entrando por caminhos de sobre-experimentação. Obviamente que o domínio prévio das tecnologias utilizadas contribuiu para esse facto. O tempo. Essa variável evanescente por definição, foi provavelmente aquela que permitiu a Aaron um trabalho mais original. Quando os mesmo caminhos foram percorridos mais do que uma vez, em condições meteorológicas diversas, em momentos do dia diversos, sentiu-se que se estava perante algo que ainda não tinha sido experimentado em Nodar em termos de registo sonoro. Aaron conseguiu também cavar fundo em termos dos sons que caracterizam Nodar, conseguindo “quebrar” a dominância daqueles que predominam (a água do rio, os chocalhos dos animais, etc.) e fazer sobressair alguns mais difíceis de serem objecto de atenção acústica (por exemplo o som das abelhas). Um aspecto interessante da apresentação final de Aaron, nomeadamente da instalação sonora (“As paredes têm ouvidos”), foi a forma “compactada” como diversas realidades sonoras coexistiram lado a lado em cada um dos pontos de escuta colocados numa parede de pedra, criando um efeito de “estranheza” (água convivendo com abelhas, sons de animais vindos de uma parede, etc.). Esta instalação , que teve por base um pressuposto metafórico de jogar com a dialéctica interior / exterior (paredes de pedra como repositórios acumulados de memória), funcionou como um limite concêntrico do trabalho desenvolvido ao longo das três semanas. Os sons captados na paisagem aberta foram transportados, colocados e dispostos para uma escuta íntima. Em termos semiológicos a instalação funcionou como um filtro magnificado, criando uma hiper-realidade concentrada, como tal subvertida. Mas este é o papel do artista que funciona para além da recolha ecológica / antropológica, através da aplicação de mecanismos sensíveis de translocação / concentração / difusão / escolha / interpretação. O trabalho paralelo desenvolvido por Aaron de registar 24 horas seguidas de sons de um único local (varanda da residência), processo repetido por três dias consecutivos, funcionou como um contraponto ao da instalação sonora final. Através desse registo, emerge um sentido de captação do acaso, do que não é escutado ou visto, dado que o processo funciona autonomamente. O tratamento posterior destas gravações, na medida em que em princípio estarão envolvidos mecanismos de concentração, gerará talvez um efeito com alguns pontos de contactos com o da instalação. Com uma diferença importante: Enquanto que na instalação sonora existem “pontos fortes” de atenção imediatamente perceptíveis (a água, as vozes humanas, o zumbir das abelhas, etc.), no tratamento de 24 horas de captações sonoras são as zonas intermédias, os interstícios que ganham densidade acústica, na medida em que dominam grande parte do registo acústico de um dia completo. Um elemento aparentemente secundário da apresentação final de Aaron Ximm suscitou-nos uma reflexão interessante: Quando o artista fez escutar uma paisagem sonora a partir de gravações feitas no local onde vive (São Francisco, Califórnia) como exemplificação do tipo trabalho que constrói, o público presente exteriorizou de forma entusiástica a sua curiosidade, de forma talvez mais evidente do que a que evidenciou relativamente ao resto da apresentação. Uma reacção que é um indício da importância da troca de experiências entre artistas residentes e população local, de uma comunicação bi-direccional que deverá ser aprofundada e estimulada em residências posteriores. Por último, não podemos de deixar de referir a curiosidade que sentimos ao sabermos que as muitas horas de gravação efectuadas por Aaron Ximm serão escutadas em vários locais do mundo, nomeadamente onde o artista reside (Califórnia). Refira-se ainda que o material recolhido e apresentado em Nodar tem ainda um percurso criativo a concluir : Aaron propõe-se construir uma peça sonora a partir desta recolha. Perguntas que nos ocorrem: Em que resultará o posterior acto de composição “musical”? Como reagirão os ouvintes? Que tipo de estímulos terão? Em que pensarão? Como imaginarão Nodar? Perguntas de resposta incerta mas fascinante. Acaba por ser irónico que um local aparentemente isolado e esquecido da civilização (Nodar), possa ter uma visibilidade (ou audibilidade) certamente não imaginada. |